Nós e as missões

Missões de Curta Duração

As Missões de Curta Duração constituem um mundo de excelentes e únicas oportunidades para quem deseja servir a Deus num outro país. É simplesmente fascinante descobrir como qualquer um de nós pode ser útil, uma bênção, em qualquer lugar, a desempenhar tarefas e serviços simples, usando os dons e talentos com que Deus tem enriquecido a nossa vida. Como gostaria eu de ter tempo e espaço para viajar com os meus leitores por esse mundo fantástico, e levá-los a descobrir todas as possibilidades.

 

A Evolução dos Números

Em 1975, aproximadamente 6 000 Norte Americanos serviam ao Senhor em todo o mundo em missões de curta duração. Este número aumentou significativamente para 60 000 no ano de 1987, portanto dez vezes. Por volta do ano de 1991 estimava-se em cerca de 300 mil os missionários que serviam em todo o mundo com as suas profissões e cerca de 180 mil como missionários de curta duração.

Hoje, milhares de pessoas deixam os seus países por períodos que podem ir de duas semanas a dois anos, contribuindo assim de forma extraordinária para o crescimento da igreja no mundo. Num guia sobre missões de curta duração, encontrei cerca de 78 Agências/Contactos que prestam toda a informação sobre a sua origem, programas e projectos, tempo de treinamento e custos, requisitos requeridos, descrição do trabalho a desenvolver e país de destino. Uma das organizações que mais tem contribuído para o envio de jovens tem sido a JOCUM (Juventude com uma Missão), começada em 1960 como um programa evangelístico direccionado para os jovens e estabelecida presentemente em mais de 100 países.     

As denominações estão a oferecer oportunidades de servir em missões de curta duração como nunca. De acordo com a Ambassadors in Mission (AIM), afecta ao departamento nacional de jovens das Assembleias de Deus nos Estados Unidos, cerca de 10 000 estudantes participam, por ano, em viagens missionárias. Num site com o sugestivo nome “The Bridge”, é oferecido por umas das grandes denominações nos Estados Unidos oportunidades de colaborar em projectos de curta duração, cobrindo um leque vastíssimo de áreas. A ideia é ligar o povo de Deus com o Seu propósito através de missões de curta duração.

Segundo Seth Barnes, Director Executivo de “Adventures In Missions”, “em 1970 podia-se contar pelos dedos das mãos o número de grupos de jovens fazendo missões de curta duração”. “Hoje esta prática tem-se tornado comum para milhares deles através do país”. E acrescenta  “Vários líderes afirmam que os seus projectos missionários de verão têm um grande impacto mais do que qualquer outro evento que eles agendem”.(1)

Para os cristãos hoje, particularmente os jovens, são quase infindáveis as possibilidades de contribuírem com o seu tempo e talentos num qualquer ponto deste mundo, como aconteceu com três estudantes que fui buscar ao aeroporto precisamente na altura em que estava a trabalhar neste artigo. Com idades compreendidas entre os 19 e 21 anos, residentes em West Virginia, nos Estados Unidos, estas jovens vieram por 12 dias para trabalhar com crianças de três lares evangélicos.

 

Gente Comum Chamada a Fazer Coisas Extraordinárias

Há sinais evidentes da forma como Deus está a usar pessoas de todas as idades e estratos sociais por todo o mundo, pessoas dispostas a atravessar os continentes e os mares para partilhar o seu amor e talentos com aqueles que estão em necessidade, ainda que por algumas semanas. Deus continua a recrutar, ainda hoje, centenas, milhares de vulgares homens e mulheres capazes de fazer a diferença no mundo das missões.

Sou testemunha de um desses casos, em que cerca de doze pessoas atravessaram o Atlântico para ajudar o Desafio Jovem aqui há uns anos atrás. Nessa altura a minha mulher e eu estávamos a dar início ao Centro Feminino em Salvaterra de Magos, quando este grupo de pessoas pertencentes a uma igreja em Phoenix, nos Estados Unidos, veio para nos ajudar a remodelar um pavilhão que seria o dormitório das raparigas. Eram na sua maioria reformados, mas não incapacitados para o ministério. Por cerca de duas semanas trabalharam entre nós de forma entusiástica e contagiante, suportando todos os encargos inerentes à sua estadia, para além de nos abençoarem com milhares de dólares, ferramentas que nos deixaram e electrodomésticos que ofereceram durante o tempo que permaneceram em Portugal. Cerca de duas semanas apenas, um período de tempo aparentemente curto para um projecto missionário, mas que dá para perceber que em missões de curta duração não é fundamental o tempo que dispomos mas o que nos propomos e somos capazes de realizar.   

Como pastor em Macau, vivi também ali uma das experiências mais marcantes do meu ministério e percebi quão úteis podem ser as pessoas mesmo por curtos períodos de tempo.

Uma jovem missionária de um país da América do Sul a quem convidámos para nos ajudar a evangelizar mulheres vindas desse continente e que ali se prostituíam, permaneceu connosco por cerca de um ano, um tempo valioso e com resultados francamente satisfatórios. O seu apoio foi uma mais valia para o nosso ministério e para a igreja ali, pois permitiu-nos entrar no mundo da prostituição com o evangelho. Lembro-me particularmente de um domingo, onde tínhamos a presença de 7 destas mulheres no culto. Uma delas haveria de ser ajudada pela igreja a regressar ao seu país com uma criança nos braços, mas com Jesus no coração. Tudo porque uma jovem missionária dedicou somente um ano da sua vida a ajudar aquelas mulheres ali em Macau. Tudo porque uma igreja num país distante e com uma cultura totalmente diferente decidiu investir numa pessoa.

 

O Papel da Igreja Local

A tarefa de evangelizar o mundo foi dada à igreja. Cada igreja local deve, por isso, estar de algum modo envolvida no cumprimento desta tarefa, independentemente do grau de envolvimento a que se preste. Poderá fazê-lo de modo próprio, associada a outras igrejas ou em parceria com Agências Missionárias, não esquecendo que a igreja foi a primeira instituição designada por Deus para enviar missionários. Actos capítulo 13 é disto exemplo, quando a igreja ali enviou Paulo e Barnabé, os primeiros missionários.

Apesar de existirem hoje grandes organizações missionárias, a estratégia missionária de Deus continua a passar pela igreja local, uma posição que se vem fortalecendo ultimamente. Segundo alguns missiologistas, “A ênfase na igreja local como enviadora de missionários é uma das tendências para as primeiras décadas do século XXI”.(2)

A igreja não pode alhear-se das suas responsabilidades na Grande Comissão, do mesmo modo que as agências missionárias não podem prescindir do apoio da igreja local. Caminhar juntas, compreendendo o papel de cada uma na tarefa de alcançar os perdidos, contribui não só para o esforço missionário como para evitar extremos de linguagem do género: “…as agências missionárias, tanto denominacionais como interdenominacionais, são supérfluas”,(3) no dizer de alguns,  “aliviando” por outro lado “alguma tensão” que possa existir entre uma e outra entidade.

Um exemplo de cooperação a seguir em missões de curta duração vem da Adventures in Mission (AIM) que, em cooperação com as igrejas, ajuda os pastores de jovens a treiná-los e a discipulá-los. Desde o seu início, há cerca de 10 anos atrás, a AIM já enviou 25 000 jovens e estabeleceu parcerias com mais de 1 000 igrejas em projectos de curta duração.

No seu livro “Missões & Cia, unindo forças na obra missionária”, os autores dedicam um capítulo à cooperação entre a Igreja Local e a Agência Missionária. No que respeita ao papel da igreja local destacam vários aspectos que caracterizam a sua intervenção no processo missionário, sendo um deles a “Igreja como Celeiro de Missões”. Significa isto que em cada igreja local existe um potencial enorme de recursos humanos o tal celeiro que, uma vez motivados e providos de condições mínimas podem fazer coisas significativas mesmo em missões de curta duração. Um missionário que é enviado por um período reduzido de tempo, pode constituir-se num catalizador de missões para a igreja que o envia. Acontece também, particularmente entre os estudantes, que depois de uma experiência excitante numa missão de curta duração, nasce o desejo de partir para uma experiência mais longa.

 

Nós e as Missões de Curta Duração

Na igreja em Portugal existem certamente pessoas, muitas pessoas, com vontade de servir a Deus e desejosas de ser uma bênção nalgum projecto de curta duração por esse mundo fora.

Não obstante os trabalhos já realizados e inseridos neste âmbito de missões de curta duração, muitos dos quais de reconhecido mérito, há ainda muito por fazer, um mundo fantástico de possibilidades por descobrir, inúmeros projectos para realizar, se pensarmos, por exemplo, no vasto campo missionário que é África de língua oficial portuguesa. Quantos hospitais, escolas e templos há para construir? Quanta formação espiritual, médica, empresarial, social e psicológica há ainda para dar? Quantos recursos ao nível da página impressa há ainda para criar? Quantas campanhas de prevenção da sida, droga e outras há ainda para fazer. Quantas.... bem, descubra por si próprio as inúmeras oportunidades de serviço no campo missionário. Sites como www.missionresources.com , os livros Operation World de Patrick Johnstone e Fazedores de Tendas, Stepping Out (um guia para missões de curta duração), entre outros, podem ajudá-lo a encontrar os desafios e a motivação que precisa.   

Há razões históricas, culturais e cristãs evangélicas, uma língua comum que nos une a estes povos irmãos, motivos mais que suficientes para fazer dos PALOP o alvo do nosso investimento seja de curta ou longa duração. Sendo certo também que tal como S.Paulo nos devemos sentir devedores para com eles.

Enquanto fazia alguma pesquisa sobre missões de curta duração na internet, constatei para meu desalento que em relação aos PALOP praticamente não existem iniciativas, ao contrário de outras partes do globo onde os projectos abundam. Poderá isto significar que “se não formos nós, quem irá?” Não se trata de ser  presunçosos mas sim responsabilizarmo-nos pelo que nos compete fazer.

Seja em África ou noutro ponto qualquer do mundo nós, os portugueses, temos muito para dar. O que nos impede de sermos úteis, via de regra não é a falta de recursos ou de condições, mas alguma inércia, falta de visão, vontade, iniciativa para fazermos nós próprios ou em parceria com outros.

É preciso apostarmos mais uns nos outros, mas particularmente nos jovens, envolvê-los em projectos missionários, criar condições e oportunidades para que se sintam úteis em favor dos outros, aproveitar todo o potencial que reúnem, a sua alegria e entusiasmo e enviá-los.  

Vivemos um tempo excitante e de grandes desafios, tremendas oportunidades, momentos únicos de servir no campo missionário. É tempo de agarrar as oportunidades!

Espaço Lusofonia



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