No terreno

História de uma viagem à Guiné-Bissau

A Assembleia de Deus em Benfica tem apoiado, desde há alguns anos a esta parte e mais intensivamente desde Janeiro de 2011, um projeto de âmbito espiritual e social na Guiné-Bissau. Apresentamos o relato da viagem missionária na primeira pessoa, pelo pastor presidente da igreja em Benfica, António Gonçalves (N. da R.)

Em Janeiro de 2011 desloquei-me à Guiné, com o objetivo de me inteirar sobre qual seria a forma mais adequada, e com quem deveríamos efetivamente trabalhar. Este ano, em janeiro, quando regressei ali, fi-lo com o propósito de estimular a igreja em Benfica, diante do trabalho já efetuado. Assim, no dia 9 de janeiro, sai em direção a Dakar, no Senegal, onde me deparei com as necessidades e as dificuldades que o Evangelho encontra num país que, assumindo-se laico, é completamente dominado pelo islamismo. Em Dakar, deambula pelas ruas mais de um milhão de crianças chamadas talibez, que estão entregues aos Marabus (líderes das escolas corânicas) para que estes os eduquem e lhes proporcionem um futuro. Porém, a realidade é que estas crianças são colocadas nas ruas de Dakar a mendigar. Elas não aprendem de facto coisa alguma, a não ser recitar partes do Alcorão, que nem elas mesmas entendem, e fazem-no como se fosse uma ladainha.

Saímos de Dakar para Tambakunda, uma viagem de 500 km. Ali, encontrámos uma cidade profundamente islâmica, onde está um casal de missionários, o Tito e a Nanci. Eles são verdadeiros heróis da fé, a trabalhar num meio completamente adverso, mas com resultados de vidas transformadas, apesar das condições a que os familiares muçulmanos os condenam. Foi gratificante visitar as tabancas (aldeias) no Senegal, e ser recebido pelos líderes islâmicos, dando-nos a liberdade de partilhar a nossa fé e agradecendo-nos por nos interessarmos por eles.

Saímos de Tambacunda, com o coração dorido, pelas dificuldades com que os missionários levam o trabalho com tanto amor e empenho e por podermos termos sido um encorajamento para eles naqueles dois dias. De facto foram eles que nos encorajaram a nós sem o saber.

Viajámos para Cabendu, onde compramos lugares na pick-up, uma Peugeot de caixa aberta com uma cobertura metálica improvisada. Num espaço para seis pessoas vínhamos 13, mais a mercadoria, além dos outros passageiros que vinham ao lado do condutor (quatro) e outros junto com a carga em cima (cinco). Uma estrada de terra batida com imensas crateras, em que o motorista conduz como se estivesse a correr no autódromo do Estoril. São cerca de 40 km até à fronteira da Guiné, mas, nesse relativamente curto percurso a viatura teve de parar duas vezes para meter óleo e água, e teve de mudar uma roda. Sobrevivemos até à fronteira de Pirada, onde éramos aguardados pelo pastor Néné. Seguimos por mais cerca de 90 km em terra batida e finalmente entrámos em estrada com alcatrão, e já noite chegamos a Bissau. Eram sexta feira, dia 13.

Servimos nas igrejas durante o fim de semana, e na madrugada de segunda feira, chegou a equipa que vinha da igreja em Benfica  com o propósito de fazer trabalho na área da saúde, educação e formação na área informática. A equipa era composta pelos pastores Carlos Martins, eu próprio, o Dr. Jorge Carvalho (médico), a Ana Cardoso (enfermeira), a Fátima Oliveira (professora) e o Hugo Oliveira (Engenheiro Informático).

Estava planeado (o que em África é sempre relativo) irmos para a Ilha das Galinhas, mas devido à instabilidade do mar, porque a canoa da Igreja estava em reparação, alterámos o nosso plano e fomos trabalhar numa tabanca perto da fronteira de Pirada, a cerca de 250 km de Bissau, no meio do mato. Para a equipa que foi comigo, foi uma experiência profundamente marcante, pois, de repente estávamos longe de qualquer sinal de civilização, numa aldeia onde não há nada do que um ocidental considera como básico.

Esta aldeia é da etnia fula e totalmente muçulmana. Depois de nos apresentarmos ao regulo e líder da sinagoga fomos autorizados a fazer o trabalho que pensávamos fazer. A Fátima deu formação aos professores (quem nem livros têm) e fez animação com as crianças. O Hugo deu alguma formação sobre informática (foto 4). Alguns dos professores nunca tinham tocado num computador. A escola é feita de cana de bambu e quando chove não pode haver aulas. Não há cadernos, canetas, livros etc. nada do que é fundamental numa escola.

Na área da saúde, a notícia de que havia um médico e enfermeira na aldeia, atraiu pessoas desde uma distância de 40 km. Em dois dias e meio atendemos, o Jorge como médico, a Ana como enfermeira e eu como auxiliar na enfermagem e na farmácia, 250 pessoas. Fizemos um parto de uma grávida que viajou 40 km de motorizada para ser assistida por nós. Era uma jovem de 16 anos e felizmente correu tudo bem. Suturámos uma criança num golpe feito num braço o qual levou 14 pontos, mas que poderia ter levado muitos mais. Regressámos a Bissau, com a sensação de que apesar de termos trabalhado imenso, e estamos muito cansados, o que fizemos era menos do que uma gota de água no mar das necessidades.

Domingo de manhã estivemos na Igreja central, onde preguei. Foram consagrados ao Ministério cerca de 10 irmãos, entre os quais a Missionária Josefa. Depois de almoço seguimos para Buba, no sul, uma das maiores cidades da Guiné, e onde estamos a desenvolver o nosso projeto. Chegámos à noite. Já tinha começado a conferência de mulheres e a Igreja estava em festa. Durante a semana pregámos ali várias vezes, pois a conferência durou oito dias.

Chorei quando chegámos, pois em janeiro de 2011 quando lá tinha estado, a escola eram vários pavilhões feitos de cana, agora um ano depois, fruto das ofertas que enviamos, uma delas acrescentada pela Assembleia de Deus em Paris, já haviam três edifícios, um com quatro salas, outro com duas salas maiores e um terceiro onde vão funcionar o centro de saúde, salas de apoio na informática, e salas de professores; e estavam a começar a preparação para outro edifício. A escola tem 497 alunos, e neste ano lectivo  poderá chegar aos 1000. Também aqui, os professores fazem milagres, pois não têm qualquer material escolar. As secretárias são pranchas de madeira cortadas com moto serra que tanto dão para secretárias como para bancos. O projeto das Assembleias de Deus em Benfica, e agora também da igreja em Paris, é equiparmos a escola e o centro de saúde com os materiais necessários para um bem desempenho. Também aqui nesta cidade esquecida, a 250 km de Bissau, servimos no hospital local (foto 6), o qual depois do trabalho feito pediu ao Dr. Jorge Carvalho se podia oferecer o Estetoscópio, porque só havia um. Foi dada formação aos professores e feita formação a seis jovens sobre informática que ficaram habilitados a dar formação a outros, assim haja computadores. Saímos de Buba, mas deixámos lá uma parte do nosso coração e o desejo de voltarmos quanto antes. Ainda que pouco, sentimo-nos realizados porque pudemos fazer alguma coisa. Temos consciência de que para quem tem tantas necessidades, é melhor pouco do que nada.

Termino, com uma experiência que acontece com quem vive no limite. Um dia, eu, o Pr. Carlos Martins e o Dr. Jorge Carvalho, juntamente com o Pr. Bifa, fomos a Catió, a cerca de 70 km de Buba por estrada de terra batida, dar uma ajuda e encorajamento ao pastor local. Quando regressávamos, o jipe que tem mais de 20 anos simplesmente avariou. Empurrámos, analisámos a situação e concluímos que estávamos numa situação difícil. Depois de todos nos “armarmos” em mecânicos, o jipe nem sinal dava. Uma hora depois, impus as mãos sobre o capot e orei. “Senhor, a Tua Palavra diz que oraremos pelos enfermos e eles serão curados. Este carro está enfermo e eu oro por cura em nome de Jesus.” O Pr. Carlos Martins disse amém concordando com a oração. Voltei ao Jipe, peguei num dos muitos fios soltos e enfiei-o num buraco. O Pr. Carlos Martins deu à ignição e o milagre aconteceu: o jipe pegou. Entrámos e seguimos viajem em oração até Buba. Quando chegámos o jipe parou e não voltou a trabalhar. Deus faz milagres. A obra de Deus na Guiné vive num milagre permanente.

António Gonçalves

Pastor evangélico – Benfica (Lisboa)

NOTA

O texto, que a seguir reproduzimos, foi-nos cedido gentilmente pela revista Novas de Alegria, bem como as fotografias que se encontram na Galeria

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