Os acontecimentos de 11 de Setembro que ocorreram nos Estados Unidos, encerram algumas verdades e princípios que podem ser transportados para a realidade do ministério. Sobressai a ideia de que até os mais fortes e poderosos são vulneráveis e susceptíveis de serem abalados por acontecimentos vários e inimagináveis. Percebe-se que não é suficiente ter poder e recursos para resolver tudo sozinhos. Na luta contra o terrorismo, os Estados Unidos concluíram que dificilmente seriam bem sucedidos sem o envolvimento da comunidade internacional. Compreenderam que precisavam de cooperação. A cooperação aparece assim como a palavra-chave em todo este processo.
Este é um exemplo recente e flagrante da necessidade que os novos os governantes, as instituições, qualquer que seja a sua natureza, têm de cooperar entre si para fazer face a situações mais ou menos graves, partilhar informações e conhecimentos, disponibilizar recursos humanos e materiais, entre outros.
Se pensarmos na Grande Comissão, por exemplo, vemos quão importante é a cooperação entre os líderes e as suas respectivas congregações, entre missionários e as organizações cristãs. E necessário, pois, que estejamos abertos à cooperação. A carta que S. Paulo escreve aos crentes da igreja em Filipos, cujo carácter de cooperação o apóstolo enaltece, pode ajudar-nos a compreender a necessidade e o valor da cooperação.
Uma Igreja Modelo
A Igreja de Filipos era uma Igreja Cooperante. Ao escrever à igreja em Filipos a agradecer a generosa oferta que lhe havia sido enviada, a primeira recordação que Paulo refere é a sua característica de cooperação: “Dou graças ao meu Deus por tudo o que me recordo de vós, fazendo, sempre com alegria, oração por vós em todas as minhas súplicas, pela vossa cooperação no Evangelho, desde o primeiro dia até agora”. Que lembrança reconfortante e encorajadora para Paulo, saber que podia contar com estes irmãos! Note que o apóstolo, ao dirigir-se à igreja, evidencia esta notável qualidade de carácter dos crentes de Filipos. A igreja Neo -Testamentária precisa experimentar e evidenciar no seu seio um espírito de cooperação e não de disputa ou isolamento.
A Cooperação dos Filipenses era Consistente e Integral.
Uma outra característica notável desta igreja, era a consistência da sua cooperação. Paulo recorda também aqui o longo e consistente cuidado e cooperação por eles providenciado: “desde o primeiro dia até agora “; “Todos vós sois participantes comigo da graça, tanto nas minhas prisões, como na defesa e confirmação do evangelho” (1:5,7). O primeiro dia foi aquele em que o Senhor abriu o coração de Lídia para o Evangelho. A sua casa não somente se tornou cristã como também passou a ser a base para os missionários (At. 16:14-15). Paulo podia regozijar-se também aqui, pois era-lhe grato constatar a regularidade e perseverança destes crentes no apoio que sempre lhe prestaram. Que exemplo para nós! Este é o tipo de cooperação que precisamos implementar nas nossas igrejas hoje. Uma cooperação verdadeira, que não oscila com o passar dos anos, que não é interrompida, “que não tem fases como marés”, como alguém observou. Já agora, permitam-me uma chamada de atenção sobre as interrupções que ocorrem na cooperação quando se verifica uma mudança de pastor. É lamentável, que alguém fique privado de apoio e cooperação só porque o novo pastor entende fazer o contrário, sem medir as consequências de tal decisão.
Era uma Cooperação Generosa e Sacrificial.
O melhor pelo evangelho! As aflições do seu querido pai na fé pelo Evangelho, leva-os também a partilhar das mesmas. Enviam-lhe Epafrodito para consolá-lo e também dinheiro para suprir as suas necessidades. Qual de nós não se comoverá diante de tão larga generosidade! Quem de nós, especialmente aqueles que estão no campo missionário, não se sentirá estimulado com tais manifestações de simpatia e cooperação? O contrário também sucede, infelizmente, quando os que labutam arduamente se sentem invadidos pela tristeza de não sentirem cooperação das suas igrejas ou colegas de ministério. Uma das experiências mais tocantes que tive em termos de cooperação ocorreu quando contactei vários pastores no sentido de obter apoio das suas igrejas para acudir os irmãos de Moçambique vítimas das cheias que assolaram aquele país em 1999. Estas igrejas marcaram a minha vida pela espontaneidade e generosidade evidenciadas, de tal forma que ainda hoje recordo com grande comoção o seu gesto. A lição que daqui aprendi foi: não importa quem precisa ou está na origem do pedido de cooperação, mas antes a atitude.
Compreender Hoje a Cooperação
O Ponto de Vista Bíblico
Num Fórum sobre a Comunidade Pentecostal/Carismática Portuguesa realizado recentemente, o Pr. Luis Reis, membro da Convenção das Assembleias de Deus e pastor presidente da igreja em Queluz, Portugal, fez uma intervenção em que abordou os aspectos da comunhão e cooperação. Falando de cooperação disse: “É preciso compreendermos como igrejas e como líderes o que não somos e o que somos, de acordo com a palavra de Deus: Não somos competidores — devemos ser cooperadores; não somos antagonistas — devemos ser companheiros; não somos adversários — devemos comportar-nos como irmãos; não somos rivais — somos complementos uns dos outros”. As rivalidades, disputas, partidarismos, divisões, desaparecem quando percebemos que somos, acima e antes de tudo, “cooperadores
de Deus”(I Cor. 3:9). “Há um Deus soberano, há um corpo, há uma seara e há uma pesca. Há um inimigo comum”. Estes factos bíblicos, de acordo com Goran Sturve, “dão-nos um espírito de união e de serviço em humildade, atitude necessária para uma cooperação na prática”(l), assegura-nos. Podemos dizer, pois, que o Senhor é a razão da nossa cooperação no Seu serviço.
Relacionamento e Cooperação
Um dos problemas na falta de cooperação entre obreiros que muitas vezes se diagnostica relaciona-se com relacionamentos, pela sua ausência, ou pelas condições deficientes em que operam ou numa compreensão errada da sua função. No seu livro “Management: a Biblical Approach” (Administração: uma Abordagem Bíblica), Myron Rush diz que o líder “precisa ter em mente que as pessoas necessitam de outras pessoas e que a função do relacionamento é assegurar que todas as necessidades no relacionamento são supridas”. Falhar em reconhecer este princípio básico, diz Rush, “tem sido a causa de muitos líderes desenvolverem sérios problemas de relacionamento com outros na organização ou grupo” (2). O autor menciona tipos de relacionamento encontrados em organizações que classifica em quatro estilos básicos: cooperação, retaliação, domínio e isolamento. Segundo Rush, “quando um relacionamento começa, este dá origem a um estilo de cooperação manifesto através das seguintes condições: compromisso mútuo em suprir as necessidades de outras pessoas; mais ênfase nos outros do que em si próprio; confiança e respeito mútuo; uso mútuo de dons, habilidades e criatividade; produtividade no relacionamento; compromisso pessoal no relacionamento; fortalecimento contínuo no relacionamento” (3).
Não somos competidores — devemos ser cooperadores; não somos antagonistas — devemos ser companheiros; não somos adversários — devemos comportar-nos como irmãos; não somos rivais — somos complementos uns dos outros.
Princípios Orientadores na Cooperação
1. A cooperação e a comunhão no Evangelho é necessária e precisa ser redescoberta, se queremos chegar mais longe no alcance dos perdidos.
2. Cabe à liderança de uma congregação a responsabilidade de levá-la a interiorizar e viver a cooperação como algo fundamental e não acessório.
3. O obreiro e a congregação que preside no Senhor devem ser caracterizados por um espírito de cooperação modelar como a igreja de Filipos, dos quais se possa dizer, como Paulo: “Dou graças a Deus por toda a lembrança que tenho de vós “.
4. O ministro do evangelho deve estar receptivo a iniciativas que requeiram dele e da congregação uma participação empenhada e desinteressada de qualquer recompensa em projectos vários, nomeadamente no domínio do evangelho.
5. O foco da cooperação tem que ser norteado pelo princípio da serventia. A ênfase tem de ser posta no servir, mais do que no ser servido, em ser útil mais do que tirar proveito, em partilhar mais do que em receber.
6. O obreiro deve lutar contra toda e qualquer tendência para a competição que caracteriza o mundo dos nossos dias, evitando a sua entrada na vida da igreja sob pena de trazer graves prejuízos ao seio da mesma.
7. A cooperação caracteriza-se pela partilha de recursos, capacidades, dons, experiências, informações e tudo o que contribua para suprir necessidades, trazer bem-estar e aumente a qualidade de vida das pessoas, particularmente no âmbito espiritual.
8. O obreiro deve apreciar e desejar a cooperação, manifestar gratidão e contentamento por poder dar o seu contributo, quando solicitada a sua participação nalgum projecto ou actividade.
9. A cooperação tem como função concentrar atenções e esforços num problema, projecto, pesquisa ou nalguma actividade, tendo em vista ajudar a encontrar uma solução.
10. Acima de tudo, qualquer forma de cooperação que envolva o obreiro, a congregação ou qualquer organização cristã, deve ter em mente o bom nome de Cristo, a expansão do reino de Deus e a Sua glória.
(1) Goran Sturve
Aos que Ainda não Ouviram Palestras do Congresso Brasileiro de Missões; Caxambu 1993, página 248
(2) Myron Rush
Management: A Biblical Approach Página, 66
(3) ldem, página 68
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