Abel Tomé - A Sós com Deus

Quando procuramos saber qual é o segredo que está por detrás do sucesso espiritual de pessoas a quem Deus usou de modo extraordinário, sejam personagens bíblicos ou de outras épocas, descobrimos uma verdade simples que permanece ainda hoje e que se resume no seguinte: “Tempo diário na presença de Deus”. Tais pessoas compreenderam que separar um período de tempo específico em cada dia para estar a sós com Deus fazia toda a diferença nas suas vidas e no seu viver diário. E nós, compreendemos esta necessidade?

 

Que momentos são estes?

A expressão “Tempo diário na presença de Deus” aqui usada, embora não esteja claramente mencionada na Bíblia, não significa, contudo, que não encontre nela suporte. Se observarmos com atenção, verificamos que existem várias referências que nos levam a pensar que momentos específicos por nós determinados em cada dia e consagrados à comunhão pessoal com Deus, lendo a Sua Palavra e permanecendo em oração e adoração são da vontade de Deus . Exemplo disso é o Salmo 5, versículo três onde lemos: “Pela manhã, ouvirás a minha voz, ó Senhor; pela manhã, me apresentarei a ti, e vigiarei”. Uma outra tradução diz na última parte deste versículo: “…e esperarei em expectativa”. Tomemos também o caso de Daniel, outro exemplo de alguém que tinha o hábito de se encontrar diariamente com Deus, mesmo depois de sofrer ameaça de morte (Daniel 6:10). Poderíamos ainda falar de Abraão, que permanecia diante de Deus, esperando que o Senhor lhe falasse (Génesis 19:27), isto para não mencionar o próprio Senhor Jesus, que também Ele tinha os seu momentos de comunhão íntima com o Pai (Lucas 6:12; Mateus 14:23). O exemplo de Jesus e a experiência de muitos outros cristãos tornam-se a nossa autoridade para guardarmos diariamente um tempo sossegado na presença de Deus. Se eles sentiram essa necessidade de estar na Sua presença numa base diária, quanto mais nós precisamos destes momentos como pão para a boca. O Senhor anseia muito encontrar-se connosco em cada dia, pois somos criaturas suas dotados dessa capacidade de nos relacionarmos intimamente com o criador e Senhor de todos. É na Sua presença que encontramos, entre outras coisas, o alimento espiritual, a força e a estabilidade que tanto carecemos. E é somente na medida em que recebemos Dele que poderemos dar aos outros também, à semelhança de Pedro à entrada do Templo que deu ao paralítico aquilo que tinha (Actos 3:6).

 

A base para a comunhão

A palavra comunhão significa, entre outros, “ter coisas em comum”. A ideia aqui é permanecer junto por um motivo, uma razão ou causa. Agora pense no seguinte: “Deus deseja relacionar-se de forma íntima e pessoal com cada um de nós”, quando nós e Ele permanecemos juntos pelo mesmo motivo. Não é fantástico? No entanto, para alguns isto pode parecer distante, senão mesmo impossível. Mas se observarmos atentamente as palavras de João no seu livro (I João 1:1-10), verificamos que afinal é algo que está perfeitamente ao nosso alcance. O autor mostra-nos como é que esta proximidade com Deus pode ser uma experiência perfeitamente normal e desejável na vida cristã. O primeiro passo para que isso seja possível, consiste no reconhecimento do pecado, ou seja, ter a consciência de que este nos mantém afastados Dele. O pecado quebra a comunhão, podendo esta, no entanto, ser restaurada pelo arrependimento e confissão (Isaías 59:2). Foi no Éden que a comunhão se perdeu pela primeira vez devido ao pecado de Adão, afastando irremediavelmente o homem de Deus. Mais tarde em Cristo Jesus, a comunhão seria restaurada através do Seu sacrifício na Cruz do Calvário. O caminho está agora aberto aquele que deseje relacionar-se intimamente com Ele e que pretenda desfrutar da Sua doce presença e companhia.

 

Comunhão é comunicação também

Nos momentos de que dispomos para estar a sós com Deus é importantes que saibamos separar tempo para falar com Ele, por intermédio da oração, e deixar que Ele nos fala através da Sua Palavra. Para alguns de nós este equilíbrio pode ser difícil de alcançar, mas a comunicação é isto mesmo, duas pessoas que encontram espaço para se fazerem ouvir. Uma boa comunicação é um diálogo e não um monólogo. É verdade que Deus pode falar connosco de variadas formas, mas eu creio que Ele privilegia aqueles momentos de silêncio em que nos dispomos a escutá-lo para nos dizer algo específico, que tenha a haver por exemplo com alguma atitude que tenhamos tomado e que precise der ser mudada. Ou, a necessidade de olharmos para um problema que nos preocupa e passar a vê-lo numa perspectiva diferente. Talvez nos fale uma palavra de encorajamento, de amor ou exortação. Não se apresse por isso na Sua presença, escutando atentamente o que Ele tem para lhe dizer. Nessa altura poderá ser útil ter consigo um caderno de apontamentos para não perder nada daquilo que Deus possa comunicar-lhe. E o que podemos nós dizer-Lhe enquando estamos diante Dele? Em primeiro lugar, aproxime-se de Deus numa atitude de louvor e adoração. Alguns Salmos podem ser de grande ajuda aqui. Expresse gratidão pelos inúmeros benefícios diários, pelos amigos, pela provisão em cada dia e pelas orações respondidas (Salmo 95:2). Se necessário, faça confissão de algum pecado. Esteja à vontade, seja você mesmo abrindo o seu coração para o Senhor, e como David expresse naturalmente o que lhe vai na alma, aquilo que o preocupa, os seus anseios, medos, seja o que for (Salmo 30:1-12).

 

Porque é importante este tempo?

Desde logo, porque nos predispomos a uma maior proximidade de Deus, que pode ser encontrado por todo aquele que O procura (I Crónicas 28:9). Essa era de resto, a convicção de Tiago que diz: “Chagai-vos a Deus e Ele se chegará a vós…” (Tiago 4:8). Em segundo lugar, porque recebemos força para cada dia. A vida cristã é uma luta constante contra o pecado que de perto nos rodeia, e que não pode ser vencido na nossa própria força (Efésios 6:12). Em terceiro, porque a nossa vida espiritual é alimentada. Nós precisamos de nutrir espiritualmente a nossa vida (Mateus 4:4). Assim como a aparência física reflecte o cuidado que temos com o nosso corpo, a nossa vida espiritual irá reflectir o cuidado que temos com a nossa vida interior. Depois, porque encontramos paz e estabilidade. Vivemos tempos de grande perplexidade e ansiedade. Estes momentos diários com Deus providenciam-nos o antídoto para não andarmos excessivamente preocupados (Filipenses 4:6-7). Aprendemos também a desenvolver perspectivas de vida do ponto de vista de Deus (Romanos 12:2.Descobrimos ainda princípios de orientação para a nossa vida (Salmo 119:105). Finalmente, porque podemos crescer e nos tornarmos mais perecidos com Ele (Romanos 8:29).

Osbenefícios que advêm da nossa comunhão com Deus são inúmeros e duradouros, ou como alguém disse referindo-se a Maria: “Escolheu a melhor parte, a qual não lhe será tirada” (Lucas 10:42). Aos pés de Jesus Maria aprendeu verdades que nenhum outro discípulo conheceu.

 

Algumas sugestões

-  Assuma que este tempo diário é extremamente importante, cujo objectivo principal é 

   a comunhão com Deus.

-  Separe um tempo e local apropriado seja de manhã, à tarde ou à noite, para estar a sós

   com Deus.

-  Crie o hábito de orar e ler regularmente a Bíblia. Siga o exemplo de Daniel que

   orava diariamente.

-  Inspire-se nos personagens bíblicos, tal como Abraão (Génesis 19:27), Moisés, David

   (Salmo 5:3), o próprio Senhor Jesus (Lucas 6:12), cujo denominador comum era um

   intenso relacionamento com Deus.

-  Coloque o item “A sós com Deus” na sua agenda como uma prioridade.

- Disponha-se a ter comunhão com Deus, mesmo que isso implique dispensar alguma

  coisa secundária.

 

Abel Tomé

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