Abel Tomé - O Poder do Sal

Das várias figuras que na Bíblia aparecem a representar o cristão, o sal, a par da luz, é provavelmente aquela que melhor conhecemos. Jesus usou-a nos seus ensinamentos em Mateus, no capítulo 5, para enfatizar o efeito positivo que como cristãos devemos de ter sobre os outros. A metáfora lembra-nos particularmente a responsabilidade que temos de influenciar o nosso mundo para Cristo. Surge então a pergunta: “Estamos a satisfazer as expectativas que Jesus colocou em nós como seus filhos?

 

De acordo com Romanos 14:7, que diz: “Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si”, ressalta a ideia de que exercemos algum tipo de influência uns sobre os outros, tanto para o bem como para o mal. Crê-se que ao longo da nossa vida influenciamos, no mínimo, cerca de 250 pessoas, o que coloca sobre nós uma tremenda responsabilidade. Quando digo nós, refiro-me de facto a todos os cristãos, pois Jesus foi peremptório ao afirmar: “Vós sois o sal da terra”, numa clara alusão aos seus discípulos de uma forma geral e não a um grupo restrito. É preciso banir da nossa forma de pensar a ideia de que influenciar outros para Cristo é tarefa dos mais talentosos, capazes, alguém com uma personalidade irresistível, contagiante. Apesar de isso não corresponder à verdade, o facto é que alguns se sentem incapazes para o fazer, escudando-se atrás de aparentes limitações.

Na minha memória está gravada uma imagem que de tempos a tempos é avivada, a daquele homem simples que se abastecia na mercearia dos meus pais há muitos anos atrás. Com uma persistência invulgar, ele foi capaz de influenciar toda a nossa família para Jesus e, indirectamente, muitas outras. Na verdade não o fez pela sua capacidade de persuasão nem por possuir algum talento especial na arte de comunicar, mas acima de tudo por aquilo que era, tal como Jesus havia afirmado a nosso respeito: “Vós sois…” (Mateus 5:13). Note que as palavras de Jesus aparecem na sequência das bem-aventuranças, onde o Mestre faz sobressair as qualidades que devem estar presentes em cada cidadão do Reino. É na medida em que possuímos essas características que a nossa influência se torna poderosa e somos capazes de fazer a diferença no mundo em que vivemos. O que fazemos e dizemos também é importante na influência que pretendemos exercer sobre os outros.

 

Uma das características do sal, talvez aquela que mais força ganha nas palavras de Jesus aqui, é precisamente a de preservar os alimentos, prevenindo a sua deterioração. Há vários anos, antes de aparecerem os frigoríficos e as arcas congeladoras, os alimentos eram conservados em recipientes saturados de sal. Recordo-me perfeitamente dessa imagem, quando recuo no tempo (tinha os meus 12 anos) em que no nosso estabelecimento alguns alimentos ali vendidos eram preservados desse modo. Hoje o sal já não cumpre essa função, havendo até modernos sistemas de conservação natural de alimentos por vácuo, em sacos de plástico e outros recipientes. Na prática, então, como poderemos ser sal? Aquilo que Jesus está a dizer é, o que o sal é para os alimentos, assim somos nós para os outros. Ou seja, somos chamados sal pela capacidade que Deus nos dá de contribuirmos para que as pessoas sejam preservadas do mal, não se deteriorando em termos morais e espirituais. Por exemplo, o Desafio Jovem tem sido levantado nestes dias como um elemento de prevenir a destruição de muitos jovens pela influência nefasta das drogas. As cidades de Sodoma e Gomorra poderiam ter sido preservadas pela influência de apenas dez homens justos (Génesis 19), caso fossem ali encontrados.

 

O sal é também uma substância agressiva, na medida em que se infiltra em tudo o que toca. No dia em que esta substância deixar de cumprir a sua função, os alimentos entram inevitavelmente em decomposição. Do mesmo modo nós como cristãos e como igreja temos sido constituídos como uma força activa e não passiva, que desenvolve a sua acção no lugar onde Deus nos tem colocado, à semelhança dos primitivos cristãos conhecidos como aqueles “que têm alvoraçado o mundo chegaram também aqui”(Actos 17:6). Onde quer que eles chegavam a presença e o bom cheiro de Cristo haveriam de ser notados através das suas vidas, do seu testemunho, que deve estar em consonância com o viver (Actos 8:4-8; Colossenses 4:6).

Devemos aproveitar a posição privilegiada em que nos encontramos para aí influenciar positivamente a vida dos outros, precisamente o contrário daquilo que fez Jeroboão, descrito como um homem “que fez Israel pecar”. O trágico aqui é que ele não somente pecou como influenciou outros a pecar, sendo lembrado como alguém imprestável, de má reputação (I Reis 12:26-33; 16:26; 21:22; II Reis 3:3). Já pensou como é que gostaria de ser lembrado um dia pelos seus amigos e familiares?

 

Outras características do sal poderiam aqui ser evidenciadas, nomeadamente a particularidade de dar sabor, criar sede, o que significa para o cristão levar outros a desejar ser livres do pecado, a experimentar nova vida, por exemplo. Mas o sal pode também tornar-se inútil, cujo destino é ser “lançado fora e ser pisado pelos homens”, de acordo com as palavras do Mestre (Mateus 5:13). Isso pode acontecer quando perdemos a salinidade, fruto nomeadamente de misturas com outras substâncias prejudiciais que permitimos se introduzam na nossa vida. Sem perder de vista a importância do amor que gostamos de enfatizar, creio que precisamos de focar mais a nossa atenção na acção do sal, pois estou convicto de que é aquilo que a nossa sociedade mais precisa neste tempo presente.

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