Cada obreiro do evangelho vocacionado pelo Senhor Jesus é um dom de Deus à igreja (Efésios 4.11). Paulo tinha consciência disso. Ele diz com toda a confiança: “E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério...” (I Timóteo 1:12); “Fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor (ensinador) dos gentios na fé e na verdade” ( I Timóteo 2:7).
Quando Deus põe uma chamada no coração de uma pessoa, isso não pode ser mudado no propósito de Deus, “que dos dons e da vocação não se arrepende”( ), mas o indivíduo pode perder essa vocação devido a uma vida e prática ministerial em desacordo com a Palavra de Deus ou pela rebelião aberta contra o Senhor. Por isso, e reconhecendo sua responsabilidade, Paulo dizia: “Como fomos aprovados por Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim falamos, não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações” (I Timóteo 2:4; conf. Ainda II Coríntios 2:17; II Coríntios 5:9).
1. Os que se fazem a si mesmos; 2. os que são feitos pelos homens; 3. os que Deus vocaciona. Das duas primeiras classes se pode dizer que “correm sem terem sido enviados”, “são mensageiros loucos que seguem o seu próprio espírito” (Ez. 13:3). Vêem vaidade e adivinhação mentirosa os que dizem “O Senhor disse” quando o Senhor os não enviou; e fazem que se espere o cumprimento da palavra (Ez.13:6). “Os profetas profetizam falsamente em meu nome; nunca os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; visão falsa, e adivinhação, e vaidade, e o engano do seu coração são o que eles vos profetizam”(Jr.14:14; comparar com 23:21,22,28); “correm sem terem sido enviados; não têm mensagem conveniente” (II Sm. 18:22). Esta situação reveste-se de uma tremenda solenidade!
Deus continua a dizer: “O profeta que teve um sonho, que conte o sonho; e aquele em quem está a minha palavra, que fale a minha palavra, com verdade. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor (ver Jeremias 23:28-32). Quatro vezes na Bíblia se lê enfaticamente a solene proibição de procurar acrescentar ou retirar algo ao que Deus já disse e está escrito (Dt. 4:2; 12:32; Pv. 30:5,6; Ap.22:19). Depois de milhares de anos, hoje como em tempos passados, levantam-se os agoureiros e os profetas super espirituais a dizer “que a revelação que temos na Bíblia não está completa”. Este é um dos falatórios profanos que se ouve. “Deus falou-nos nos últimos tempos pelo seu Filho” (Hb.1:1) e nem de longe as almas sinceras e humildes podem admitir que em cada geração tenhamos de tirar algo da Palavra de Deus ou acrescentar-lhe alguma nova doutrina, a fim de acompanharmos a evolução das novidades e ideias humanas e não sermos tidos como antiquados. Há a voz das “sentinelas-alerta” que diz: “cuidado com os obreiros fraudolentos; com homens abomináveis”, com “espíritos enganadores e doutrinas de demónios” (Ef. 4:14; II Pd. 3:16,17; I Tm.4:1,2; II Tm. 3:1-4).
Daquelas duas classes de obreiros a que já nos referimos se pode dizer que escolhem uma profissão a fim de alcançarem prestígio profissional e oportunidade de exibirem os seus dotes de oratória e aptidões tribunícias a oportunidade de levar uma vida mais ou menos fácil e cómoda e de grande atracção para os tais. Monopolizam, segundo pretendem fazer ver, a “chave do conhecimento de novas revelações e não entram nem deixam entrar os outros (Lc. 11:52). Rebaixam a vocação divina ao nível de interesses próprios e mesquinhos. Ganham amigos para si e edificam suas igrejas sobre a base de lealdade a si próprios. Quão diferentes estes são de Paulo, em quem não havia deslealdade, ausência de sinceridade nem motivos duvidosos. “Ai de mim se não pregar o evangelho” – e pregou-o na sua integridade e no temor de Deus, dizendo aquilo que havia recebido do Senhor “e nada além do que está escrito”; tudo quanto está escrito na lei e nos Profetas”; falando a pequenos e a grandes, não dizendo nada mais do que os profetas e Moisés disseram (conf.I Cor, 4:6; Ac.24:14;26:22).
A verdadeira chamada para o ministério da Palavra tem sua iniciativa em Deus: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (Jo,15:16). É provável que, não tendo consciência de todos os pormenores da chamada, sejamos levados a pensar, pelo menos inicialmente, que foi a nossa apresentação voluntária para o serviço cristão que deu início à nossa carreira nessa direcção; mas o toque inicial veio do Senhor. E compreendemos, desde aí, que estamos “confirmados como servos do Senhor” (I Sam.3:20). Então, aceitamos com muita humildade o privilégio e responsabilidade que nos é imposta; e que nenhuma outra ocupação nos pode fazer felizes, a não ser “servindo ao Senhor, no evangelho de Seu Filho...” (Rm. 1:9).
Não existe nenhum trabalho que tenha tanto valor como o trabalho de pregador do evangelho. Nós estamos trabalhando para a eternidade. Este mundo necessita de homens e mulheres cheios do Espírito Santo, movidos entranhavelmente de compaixão por uma geração completamente desviada dos santos caminhos de Deus; e determinados a servir o senhor: 1. Não duvidando da chamada de Deus; 2. Não duvidando do seu poder; 3. não admitindo a derrota; 4. e sabendo que, com Deus, nunca se pode perder.
Uma vocação sem brio e um lançamento sem experiência são ainda hoje, como sempre, dois factores prejudiciais, mesmo contando com a boa vontade e o melhor esforço.
1. O pregador deve, antes de mais, crer na vitória do seu trabalho: ”Graças a Deus que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo o lugar o cheiro do seu conhecimento” (II Cor. 2:14). O pregador está sempre convencido da vitória, porque se colocou nas mão de Jesus e ele vence sempre. Jesus leva no seu séquito de Rei-triunfante milhares de trofeus. Jesus nunca perdeu nem jamais perderá uma batalha. E o pregador deve ser revestido desta fé optimista; deve crer na vitória antes de começar o seu trabalho.
2. Deve sentir-se agradecido, como Paulo, pelo alto privilégio de ser testemunha de Jesus (II Co.2:14). Ser testemunha não é motivo de vanglória, mas antes de agradecimento e de profunda humildade: “Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros dum Novo Testamento...” (II Cor. 3;5,6).
Não há coisa mais incompatível com a vocação divina do que um obreiro vaidoso, cabeçudo e cheio de vento como um tambor.
3. A fraqueza do pregador – “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós” (II Cor. 4:7).
O que é deveras importante considerar é o facto de Deus se dignar utilizar instrumentos fracos e confiar-lhes o tesouro precioso da sua Palavra. Jesus escolheu homens fracos, que se entregaram e se colocaram plenamente em suas mãos, transformaram a sua geração e continuam a transformar.
4. O verdadeiro servo de Deus morre diariamente – “Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos (II Cor.4:10). Este é o segredo que leva o obreiro a reproduzir vida nos outros.
5. O bom exemplo do pregador – (II Cor. 6:1-10)
Não se encontra um outro trecho das Escrituras Sagradas mais rico de virtudes ministeriais do que este que apontamos. Não passe por alto sem o examinar. Ser um bom ministro é difícil. O pregador está numa posição em que a sua vida e trabalho prestigiam ou desprestigiam o seu ministério (ver I Tim. 4:12). Tornam-se indispensáveis ao pregador as seguintes qualificações.
1) Coragem (II Tim. 1:7). 2) Diligência (Pv. 22:29). 3) Dignidade. (Tito 2:8).
4) Ausência de astúcias e intriga. 5) Cortesia. 6) Optimista. (I Sam. 14:6).
7) Paciente (ficar debaixo da carga). “Paciente para todos” (I Tss. 5:14).
8). Espírito perdoador. Isto significa que o homem de Deus não pode guardar ressentimentos contra ninguém. (Col. 3:13) 9) Deus está procurando (Ez.22:30): a) homens que aborreçam o suborno, a avareza, etc. (Ex.18:21); b) Que manejam bem a Palavra de Deus (II Tm.2:15); c) que sejam capazes de instruir com mansidão; d) bons distribuidores das multiformes graças de Deus (I Pd. 4:10); e) que reconheçam com humildade a necessidade de passar o facho a outros (II Tm. 2:2); f) que saibam ter em devida conta a consideração e o respeito devido uns aos outros.
Alguém corajosamente disse que um discípulo e servidor de Cristo precisa ser: “um diplomata, ter a força de Sansão, a sabedoria de Salomão, a paciência de Jó e um estômago de ferro. Deve ter a força e o couro duro como um rinoceronte e por dentro a moleza de uma pomba, o cérebro dum Salomão, a visão de uma águia, a graça airosa de um cisne, a afabilidade de um pardal, as horas nocturnas de um búfalo e, quando a igreja fizer cair na armadilha este animal, espera, finalmente, que viva da ração de um canário”. Nos dias tão excepcionais que se vivem, esta é a qualidade de servidores que a igreja de Cristo carece.
Alfredo Machado
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