Bertina Tomé - Faltam peças no puzzle?

Sentado na cela da prisão onde permanecia já há dois anos, certamente José reflectia sobre a sua vida. Em momentos de visão em retrospectiva, havia perguntas que pairavam diante de si, por certo.

Por que é que os irmãos o haviam desprezado daquela maneira? Porque não haviam respeitado os seus sonhos? Mais tarde, não imaginara que a esposa de Potífar fosse capaz de tal falsidade. Porque optara por uma mentira tão cruel? Agora, na prisão, ajudara o copeiro e pedira-lhe ajuda também. Ficara na expectativa. A verdade é que o homem fora libertado e, ao que tudo indicava, não se lembrara mais do seu pedido. Porquê?

E o seu pai? Será que alguma vez se esforçara por procurá-lo? A verdade é que nunca mais tivera notícias da família. Será que nunca o procurara? Porquê, se o amava tanto? Ele não sabia que o pai o julgava falecido, acreditando na “evidência” apresentada pelos seus irmãos. (Génesis 37-41)

 

Muitas das nossas circunstâncias de vida são vivenciadas como um puzzle a que faltam peças. Daí decorrem situações por explicar, dados que não “encaixam”, que não constroem sentido. Por que razão aquela pessoa disse aquilo, porque se afastou e não quis colaborar, porque mudou de atitude sem uma explicação, porque tomou determinada decisão, porque deu ou não deu valor a alguma iniciativa, porquê?

 

De facto, o conhecimento de que dispomos acerca da dinâmica da vida à nossa volta é limitado. Há situações que fazem sentido para nós. São-nos acessíveis e permitem-nos delinear a intervenção que nos pareça mais adequada porque as entendemos ou julgamos entender. Há outras que surgem confusas porque não sabemos tudo. Falta-nos informação, as tais peças que permitiriam completar o puzzle e compreender todo o desenho. Esta é uma condição habitualmente desconfortável e tanto mais sofrida quando mais integrada ou próxima estiver dos nossos afectos.

 

A ambiguidade representa um desgaste crescente com o desenrolar do tempo, que se traduz em avanços e recuos – uma instabilidade sobre a qual dificilmente se constrói o que quer que seja. Tal pode suceder em diversas áreas da vida pessoal: afectiva, económica, social, profissional. Lutar por oferecer sentido a um conjunto de dados presentes na nossa vida, oferecer um significado ao todo, é característica nossa como pessoas. Tal significa, frequentemente, um trabalho de “investigação”, perguntas, uma busca ansiosa de elementos ou provas que permitam construir uma conclusão e, possivelmente, recuperar a estabilidade a partir daí.

A verdade tem um importante sentido libertador. Chegar a ela, mesmo que represente uma descoberta dolorosa, define caminho. Como diz o texto bíblico: “O que encobre as suas transgressões, nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia.” Provérbios 28:13

 

Embora proverbialmente se compare ao azeite, a verdade nem sempre vem ao de cima por si mesma ou tão rapidamente quanto seria desejável. Hoje existem muitas mulheres e muitos homens cansados de lutar por entender circunstâncias e definir a vida a partir daí. Sentem-se exaustos por um esforço quase inglório.

 

A Bíblia assegura-nos que Deus é quem sabe tudo. De facto, “Não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos que tratar.” Hebreus 4:13.

Para Deus não existem puzzles de vida. Não há peças por colocar, nem pedaços recortados ou perdidos. Um percurso de vida de cada pessoa é para Ele um desenho claro e completo. Nada está escondido ou oculto pois “Deus é luz e não há n’Ele trevas nenhumas” (I João 1:5). Por isso David concluiu: “Se disser: decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me escondem de ti.” (Salmo 139: 11,12).

 

Está a viver uma situação que não entende? Já tentou compreender, colocou várias hipóteses explicativas, mas permanece numa dúvida inquieta? Como num puzzle a que faltam peças, há elementos que não consegue encaixar e há outros que parecem faltar para completar sentido? Sugiro-lhe que se detenha em dois princípios importantes:

 

- É natural não saber tudo. Não dispomos de condições pessoais para apreender tudo o que gostaríamos ou consideramos necessário saber. Poderemos esforçar-nos nesse sentido, conseguir clarificar circunstâncias e daí emergir a tal verdade que se constitui como ponto de partida para um caminho novo. Contudo, poderá suceder também chegar a um extremo de grande desgaste pessoal, após etapas sucessivas, de “descobertas” e conflitos de utilidade duvidosa e sem fim à vista.

 

- Sendo cristãos, quem conduz a nossa vida é Cristo. E Ele, sim, conhece todas as coisas. O nosso olhar é limitado: observamos o momento chamado “agora” e apenas no local em que nos encontramos. Ele observa toda a terra, desde o grão de areia mais ínfimo à maior montanha, do átomo à galáxia, do aspecto exterior de uma pessoa à sua essência mais íntima.

Ele quer conduzir cada um dos nossos passos de acordo com tudo o que Ele conhece. Assim, como Seus filhos temos o privilégio de não ver limitada a direcção da nossa vida ao pouquinho que conhecemos. Baseia-se na grandeza imensurável da Sua ominisciência. A sua promessa é clara: “Instruir-te-ei, e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; guiar-te-ei com os meus olhos.” (Salmo 32:8)

O segredo maior de uma vida bem sucedida não reside em quanto sei, mas em quanto confio Naquele que tudo sabe.

José não entendia tudo e nem precisava. O Senhor havia preparado um caminho para ele. De facto, e sem saber, estava apenas a dias de ser nomeado governador do Egipto, pelo Poder do grande Deus que nunca o abandonara. E mais tarde viria a encontrar de novo os irmãos e o pai, em momentos emotivos de verdade e de perdão! (Génesis 45)

Nesta noite, não se preocupe com as peças do puzzle que parece não ter ainda encontrado. O nosso Pai tem o desenho completo na Sua mão. Deixe que seja Ele a conduzir os seus dias, os seus pensamentos, cada decisão a tomar. Alimente-se da Sua Palavra de Deus, que é luz para o caminho. Busque-o em oração. Fique sensível à Sua direcção. Descanse no Poder daquele que diz: “Não te deixarei nem te desampararei.” (Hebreus 13:5b)

 

Bertina Cóias Tomé

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