Bertina Tomé - Ninho Acolhedor

Numa manhã de Outono, em 1966, iniciei a minha vida escolar. Lembro-me claramente desse dia. De bata branca, de mão dada com o meu pai, orámos antes de sair de casa e lá fomos caminhando em direcção à Escola Primária de Casal do Ferrão, em Coimbra. Ele ia-me ensinando cuidadosamente o caminho. Passámos por um posto de abastecimento de gasolina e lembro-me de ter tido o cuidado de me referir que, de futuro, quando chegasse ali já saberia que estava próximo da escola. Cheguei e a professora, D. Hermínia, acolheu-me com um sorriso. Meninas faziam nessa altura uma roda e convidaram-me a participar. Despedi-me do meu pai e, com umas lagrimitas nos olhos, lá entrei na roda. E assim começou a minha vida académica, que iria prolongar-se por muitos anos.

Em Maio passado o meu irmão, David, de 24 anos, completou o Curso de Direito. Foi um dia de grande regozijo e constituiu um momento também digno de registo por outro motivo. Em Maio os meus pais concluíram um percurso de 40 anos ininterruptos de acompanhamento escolar de quatro filhos, de quatro licenciaturas. Que se iniciou no dia que referi e terminou com a graduação do David.

Quarenta anos… de momentos alegres, de fases difíceis, de compra de material escolar, de oração pelos testes e por protecção sobre as nossas vidas, de apoio na procura de bibliografia, de sugestões quando a criatividade nos faltava para completar aquele trabalho… de palavras de encorajamento em horas seguidas de estudo pela noite fora, em fases de menos saúde ou recursos.

Quero aqui honrar os meus pais por esse trabalho longo, paciente, magnífico, pelo qual há uma gratidão imensa que não há palavras que cheguem para expressar….

E agora, que fase se seguirá? É verdade que o meu irmão irá em breve deixar de viver com os meus pais e assumirá a sua vida de uma forma mais autónoma do que nunca, que neste caso se traduzirá até numa comissão de serviço num outro país.

Passarão a dispor do espaço de casa apenas para os dois. Há quem chame a esta fase o  “Ninho Vazio”. Mas será verdadeiramente vazio?

É o início de uma etapa diferente cujo sentido é importante reconhecer e apreciar. Se já chegou lá e está a ter dificuldade com a ausência dos filhos, um silêncio maior e até um sentido de identidade e de utilidade comprometidos pelo facto de, ao longo de anos, se terem constituído impregnados nas tarefas de maternidade/paternidade, é altura de parar e reflectir. Considere as sugestões seguintes e inicie, com entusiasmo, esta nova fase da vida!

- Dê um sentido novo ao seu espaço. Aquela secretária e aquela estante cheias de livros, cadernos, lápis, réguas e esquadros dos seus filhos já não fazem falta. Faça com eles uma escolha do que deverá ser guardado ou não. Não deixe que a nostalgia a impeça de fazer este trabalho de limpeza. É natural que guarde alguma coisa como recordação (Que bom foi para mim folhear de novo o livro de leitura da 3º classe que os meus pais guardaram!), mas a maioria daquele material não será para reter. Dê àquele espaço um aspecto novo, confortável, adaptado a si ou a vós como casal, que proporcione conforto e funcionalidade.

- Invista mais na sua saúde. Agora tem mais tempo disponível para isso. Pode finalmente fazer exercício num ginásio, numa piscina, ou dar passeios a pé em locais agradáveis que inspirem serenidade.  Faça disso um compromisso, uma actividade  regular. No tempo frio pode substituir o passeio ao ar livre por um Centro Comercial nas horas de menor afluência.

- Descubra novos centros de interesse ou hobbies. Visitar exposições, museus e ir a concertos musicais dará ao seu dia-a-dia uma tonalidade culturalmente rica e agradável de saborear. Ou simplesmente ir tomar um café ao Provence, onde há aquele pãozinho estaladiço com…

- Aproveite a oportunidade para viajar. Já não há biberons, fraldas, tempo de aulas, exames… O tempo é todo seu, vosso! Procure conhecer formas mais económicas de o fazer (promoções de viagens, acumulação de milhas, tours e visitas guiadas, épocas baixas, ou descontos a partir de uma certa idade).

- Disponibilize a riqueza da sua experiência. Tudo o que viveu e aprendeu ao longo da vida constitui um valor digno de ser partilhado. Escrever a sua história de vida ou pequenas crónicas sobre situações vividas pode constituir material interessante a ser publicado ou simplesmente distribuído entre amigos. Se for convidada a dar aulas ou a partilhar a Palavra ou o seu testemunho pessoal, acolha bem essa oportunidade e deixe que outros sejam edificados por seu intermédio.

- Fortaleça relacionamentos. Levar uma amiga invisual a fazer compras, ir a casa de um amigo que vive só, ajudá-lo a limpar a casa e oferecer-lhe um saboroso caldo-verde, reunir amigos numa refeição, visitar, telefonar, escrever ou enviar e-mails a pessoas que provavelmente se sentem sós, dar aulas, ensinar a Palavra de Deus, enviar uma encomenda a uma amiga apenas com alguma roupa e “uns rebuçadinhos de que ela gosta muito”, ser intercessor(a) por pessoas em necessidade são apenas alguns exemplos daquilo que os meus pais têm feito nesta fase mais disponível da vida! Ao tentar levar algum calor a ninhos realmente vazios descobrirá que está também a aquecer o seu! Dê espaço ao convívio e ao surgir de novas amizades.

- Administre o seu dinheiro com sabedoria. Possivelmente os seus filhos ainda precisam de algum apoio económico da sua parte. Ou talvez lhes saiba bem, apenas. É natural que também exista um empenho seu em ajudá-los. Compreenda, contudo, que eles irão ter de se autonomizar financeiramente. Uma vez que tenham concluído os estudos e iniciado a sua carreira profissional promova neles essa autonomia. Eles precisam de espaço para gerir as suas despesas e para lutar por uma condição financeira adequada. Ajude-os sem os “levar ao colo” ad eternum. E não se sinta mal por utilizar dinheiro seu em benefício pessoal. Como dizia uma frase colada na traseira de um carro de um casal: “Estamos a desfrutar a herança dos nossos filhos”.

Estas sugestões foram todas retiradas do exemplo de vida dos meus pais. Louvo a Deus pela inspiração que têm sido para nós, os filhos, e para muitos outros “filhos” em diferentes partes do mundo! A sua casa continua a ser um ninho acolhedor!

Não deixe que o seu ninho fique vazio! Existem inúmeras possibilidades de o preencher e de o tornar um espaço verdadeiramente agradável!

Bertina Cóias Tomé

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