Pelo ar paira um aroma delicioso. Na cozinha encontram-se as iguanas acabadas de preparar pelas mãos de cozinheiros experientes que se aprimoraram para o banquete que, dentro de minutos, vai ser servido. E fácil imaginar as toalhas engomadas que cobrem as mesas com elegância, os copos de pé alto, as loiças e os talheres reluzentes. Os convidados, bem vestidos e perfumados, estão a chegar. Distribuem sorrisos e escolhem os seus lugares numa mesa que promete abundância. É uma refeição especial, em casa de uma pessoa de destacada posição social. Jesus está entre os convidados, e a certa altura, dá um conselho ao dono da casa: “Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os vizinhos ricos, para que eles não tenham, por sua vez, que te convidar, a fim de te compensarem. Quando deres uma festa, convida os pobres, os inválidos os coxos e os cegos. Assim serás feliz, porque esses não têm com que te recompensar, mas serás recompensado por Deus, na ressurreição dos justos.” (S. Lucas 14:12-14.)
ESTE EPISÓDIO, em casa de um chefe dos fariseus, transporta-nos a uma importante vertente da vida cristã e da dinâmica da igreja como um todo, sobre a qual urge reflectir. Alguém disse que aquilo que traduz a saúde e a vitalidade de uma comunidade cristã (seja a igreja local, uma instituição cristã ou o grupo de jovens crentes) não é o modo como se organiza internamente, nem sequer a dimensão do trabalho que se produz no seu seio. Não consiste na maneira como, naturalmente, em si mesma se constituem grupos de partilha, que se alimentam e sustentam afectivamente, que confirmam entre si aceitação e se gratificam. O seu valor revela-se, antes, pela forma como acolhe. A Bíblia contém abundantes referências ao valor do acolhimento ao pobre, ao estrangeiro, à criança, ao nu, ao faminto. O exemplo máximo de acolhimento encontra-se em Jesus: Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei”(Mat.ll :28). “Aquele que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo. 6:37). “Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais” (Mc. 10:14). E a bela e terna metáfora:
“Quis ajuntar-te como a galinha ajunta os seus pintos ...“ (Mt. 23:37). As palavras de Jesus na casa do fariseu continuam tão surpreendentes hoje como naquele tempo. O convite que propõem é invulgar, estranho até. Trata-se de abrir a minha porta e partilhar alimentos è aposentos com pessoas que não me são próximas, nem amigas, nem familiares, que não têm popularidade nem atracção no meio social, com quem não me identifico nem saberei sobre o que conversar, que... e os argumentos poderiam continuar. Tudo o que se diga resume-se nas sábias palavras de Jesus: são pessoas que “...não têm com que te (me) recompensar.” (Lc. 14:14). A advertência de Jesus faz-nos lembrar que acolher não é um processo de todo natural.
Os nossos investimentos afectivos assumem habitualmente o formato de uma troca, de reciprocidade — movimentos de dar e receber que sucedem numa zona de conforto que temos vindo a construir. Aí sentimo-nos aceites, reconhecidos, dominamos as regras do jogo, sabemos o que e quando falar, o que silenciar, o que é aceite, o que não é tolerado, o que promove o reconhecimento do grupo, o que é recompensado. É a nossa roda de amigos, com histórias em comum de (tantos) anos, com uma linguagem e um sabor próprios.., é o nosso espaço sócio-afectivo. Que é, então, acolher? É sair, por momentos, da zona de conforto, para ir buscar alguém que desejamos integrar nela. O nosso grupo pode vir a oferecer alguma resistência porque percebe que um elemento novo “altera as coisas”, parece comprometer a cumplicidade existente e faz sentir que, de algum modo, o grupo está a conheça de novo. Por fim até se pode questionar o sentido do acolhimento. Para quê integrar o outro se nós “estávamos aqui tão bem?” O terreno fica então fértil à indiferença, ao afastamento e até a uma hostilidade velada face ao elemento novo.., sobretudo se ele “não tem com que me recompensar”: porque é pobre, porque é diferente, porque é mais do que eu e me faz sentir inferiorizado(a) ou simplesmente porque é um rosto desconhecido. A igreja existe para acolher. E a igreja somos tu e eu. Como é a qualidade do meu acolhimento? Quem é que convido para a minha festa? Para quem é que “ponho a mesa?” Estão a chegar junto de nós, todos os dias, pessoas novas, rostos que nunca vimos antes. Aproximam-se da igreja, da instituição de apoio, da equipa de evangelismo na rua. São emigrantes regressados ao nosso país, são estrangeiros, são pessoas com necessidades diversas. Anseiam sentir-se aceites, integradas, amadas. São pessoas com um valor próprio, inalienável, único e irrepetível, cuja presença nos honra e enriquece. Será que irão apreciar o que fizermos por elas? Virão a mostrar-se gratas? Será que virão mesmo a aceitar Jesus? Valerá a pena investir nelas tempo e dinheiro? Todas estas perguntas são absolutamente inúteis. Porquê? Porque procuram recompensas que Jesus não prometeu. Ele falou no valor do acolhimento independentemente dos resultados, da resposta das pessoas. Só garantiu uma recompensa, e esta dada por Si mesmo, “na ressurreição dos justos.” Estamos nós disponíveis para um verdadeiro acolhimento? Na próxima vez que estivermos num evento cristão vamos ficar atentos à nossa volta. Facilmente descobriremos pessoas que desejam e precisam de sentir-se acolhidas, fazer parte do grupo, ainda que pouco à vontade e com a insegurança própria de quem “acabou de chegar”. Saibamos recebê-las no Amor de Cristo. Se for difícil sair da nossa zona de conforto para ir ao encontro de outros, lembremo-nos daquilo que Ele deixou para trás por amor a cada um de nós e como nos acolheu ... e nada mais será precisos
Bertina Tomé, Psicóloga.
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