DA SUA VARANDA, ele observava a paisagem ao redor. Os carros passavam ligeiros, na ânsia de chegar cedo a algum lugar. Radioso, o sol iluminava agora os montes que se avistavam defronte da sua casa. Tinha chovido há pouco, sentia-se o aroma da terra molhada. O ar parecia mais puro, tinha sido lavado. Era Abril, o mês de águas mil.
Mas ele sentia-se muito longe dali. Recordava outros dias, outros aromas, outras paisagens, outras pessoas. Tinham sido muitos anos a servir a Deus, com o que tinha, o que sabia e o que podia. Muitos rostos, muitos sorrisos, muitas lágrimas, muitas alegrias e dores. Vidas transformadas, experiências inesquecíveis, vitórias conquistadas a pulso, o abraço de Deus sempre disponível. Palavras de estímulo, palavras de embaraço, vontade de prosseguir, vontade de desistir.. .tinha passado por tudo. E um versículo ocorreu-lhe, de repente. Abriu a sua Bíblia, gasta de muitos anos e sua fiel companheira, e leu no Salmo 126: “Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará sem dúvida com alegria, trazendo consigo os seus molhos.” E era verdade. Ao longo do seu ministério tinha vivido por diversas vezes os dois momentos de modo alternado: as lágrimas de quem semeia e o regozijo de quem colhe. Falhara algumas vezes? Sim, falhara. Tinha que admitir que sim. Mas sabia que em muitos casos falhara a pensar que fazia o que era certo, ansioso por ver as coisas acontecer, ver a Obra a andar para a frente. O zelo que o impelia era aquele que, contraditoriamente, uma vez ou outra o fizera falhar. Um dia falaram-lhe em deixar de exercer o ministério, E custou-lhe ouvir. ~ verdade que já tinha pensado nisso, sobretudo nos últimos anos, de menos saúde e de mais pressão. E nos dias mais cinzentos até parecia desejá-lo. Mas agora.. .seria o tempo certo? Era uma decisão importante, ao mesmo tempo difícil por ter o sabor a irreversível e a desconhecido. Qual seria a sua condição económica a partir daí? Como preencheria os seus dias? Haveriam actividades alternativas para si? Não sentia as forças de outros tempos mas sabia que ainda tinha tanto para dar.. .e havia tanto que gostaria de receber... DEIXAR DE EXERCER FUNÇÕES é habitualmente difícil para qualquer pessoa, mas para obreiros é mais debilitante. Estudos há que indicam que a perda de uma posição ministerial, seja por que motivo for, tem maior impacto numa pessoa do que o fim de qualquer outro tipo de ocupação. Numa investigação em larga escala (Carver) conduzida recentemente nos Estados Unidos junto de pastores que terminaram o seu ministério reconheceram-se sentimentos frequentes de ira, frustração e culpa. Somos ensinados a levar “as cargas uns dos outros”. Nesse espírito, torna-se necessário desenvolver junto de cada um deles um trabalho de apoio que os ajude a viver a situação com o mínimo de danos para si próprios e para as suas famílias. Sugerimos, de seguida, algumas áreas onde a ajuda deverá incidir:
Avaliação da intensidade da situação
Trata-se de uma intervenção pronta, que envolve a resolução de problemas imediatos que têm a ver com necessidades básicas: alojamento, carências económicas, novo emprego, relacionamento com a família, com ex-colegas de ministério e com amigos em geral. Isto pode tornar necessário mobilizar a família, a comunidade e os recursos da denominação a que pertence. O motivo do fim do ministério pode justificar igualmente um apoio específico ao nível físico, espiritual e psicológico. Há que fazer uma lista dessas necessidades e procurar meios de as suprir. ‘Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel” 1 Timóteo 5:8.
Condição pessoal
Depois dessa avaliação e intervenção rápidas há que reflectir mais demoradamente sobre as circunstâncias pessoais do obreiro. É possível que se sinta só, desprotegido e incompreendido, O sentido de identidade — quem sou, para que sirvo — e os de valor pessoal poderão estar igualmente comprometidos. O acompanhamento psicológico e espiritual, não apenas pontual mas que se desenrola ao longo do tempo, como um “caminhar juntos”, constituirá um suporte importante para reorganizar valores e afectos e desenvolver recursos para a construção de um novo projecto de vida.
Suporte familiar
Precisa de ser ampliado nesta fase. Sendo a família o primeiro meio, e o mais privilegiado, de suporte, é esta a altura de desenvolver um relacionamento aceitante e de intimidade. É fácil, contudo, que os sentimentos de desconfiança, embaraço e decepção tenham invadido a rede relacional na família, ficando todos os membros perturbados pela situação e, por isso, incapazes de constituir-se como suporte uns dos outros. Há, contudo, algumas iniciativas, que poderão favorecer o tal desenvolvimento de proximidade: encorajamento de amigos nesse sentido, tomarem as refeições juntos, terem um tempo devocional diário e desfrutarem de momentos divertidos em família, que lhes permitam descontrair e recuperar o “calor” da relação.
Suporte social
O apoio de colegas e de amigos é também precioso e pode suceder de modo informal — numa refeição ou num passeio juntos — ou formal, isto é, dentro de uma estrutura organizada de apoio a pastores e famílias, como já existe em alguns países. A comunidade evangélica deve constituir uma verdadeira rede de suporte para o pastor e a sua família.
Alternativas
A falta de informação pode constituir um dos factores mais limitativos para quem necessita de estruturar de novo objectivos e dinâmica de vida, tanto mais difícil quanto maior a idade do obreiro. É necessário haver um empenho geral de angariar informação, seja de oportunidades de emprego/ocupação para quem sai prematuramente do ministério, ou de outros ministérios, acções de voluntariado, espaços de convívio e até hobbies para pastores que cessam funções por aposentação. O ministério de servir a Deus a tempo inteiro deve cessar com uma alegria semelhante àquela com que se iniciou. Deixar funções com uma tonalidade amarga não é o propósito de Deus, “não querendo que alguns se percam” (II Pedro 3:9). Confirmemos, de um modo crescente, o amor de Deus entre nós. Mesmo quando discordamos, ou apresentamos maneiras diferentes de ser ou de servir. A vida pós-ministério deve ser de uma realização plena, pois é o mesmo Deus que nos acompanha. Não se trata de um abismo, um beco ou um labirinto. É apenas uma nova etapa.
A vida pós-ministério deve ser de uma realização plena, pois é o mesmo Deus que nos acompanha. Não se trata de um abismo, um beco ou um labirinto. E apenas uma nova etapa.
Bertina Tomé
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