Lídia Mendes - Bela, Sensata e Pacificadora

“A mulher sábia edifica a sua casa, mas a insensata com as próprias mãos a derriba.” Prov. 14:1

 

Era uma mulher muito bela. Chamava-se Abigail, nome que significava “fonte de alegria”, o que devia condizer bastante com ela, pois tinha uma qualidade que realçava na sua maneira de ser - era sensata.  A sensatez é percursora de muitas alegrias, que o digam todos os que têm a felicidade de conviver com alguém com essa característica… E a beleza, bem, a beleza é sempre motivo de apreço e encanto para qualquer um de nós. Era, também, uma mulher que amava e confiava em Deus.

Nâo é considerada uma personagem muito importante da história do povo de Israel, todavia o que nos conta o autor da sua pequena biografia, referida no Capítulo 25 do I Livro de Samuel, revela características  muito ricas  da sua personalidade, dignas de exemplo para qualquer mulher dos dias de hoje.

O seu marido era um   homem de  linhagem  muito importante e também muito rico, “um homem muito “próspero”, que  possuía numerosos rebanhos,  milhares de cabeças de gado e outros haveres numa “quinta” no Carmelo, lugar um pouco distante da sua residência. Chamava-se Nabal e era um homem   de difícil trato, “duro e maligno em todo o seu trato” (v.3).

Moravam em Maom, ao Sul da Palestina, quando Saul, o primeiro rei de Israel, ainda reinava, mas já Davi tinha sido escolhido por Deus para reinar em seu lugar.

Por altura da tosquia dos animais, época que correspondia também a uma grande festa,  os homens da casa partiam para o campo. O trabalho que os aguardava era muito, por isso ali ficavam até que tudo estivesse feito.  A seguir aos trabalhos e como prova de gratidão pela abundância recebida, realizava-se um banquete, após o qual se procedia à distribuição de animais e outras ofertas pelos mais necessitados. Tudo isso ocupava os homens a tempo inteiro, não havia horas de folga!

Foi por essa altura que Abigail recebeu a visita inesperada de um dos seus criados. Certamente ficou surpreendida quando o viu, pois era muito cedo para que ele regressasse, sobretudo sozinho! O seu coração deve ter-se apertado e a sua mente imaginado que alguma coisa grave teria acontecido. De facto, aquela visita não era portadora de boas notícias!

Perante a gravidade do que vira e ouvira, enquanto estava ao serviço do seu senhor, aquele criado não conseguiu ficar parado. Meteu pés ao caminho e foi avisar a sua confiável senhora do risco que corria, bem como toda a sua família! Desta vez, o comportamento disparatado do seu marido traria consequências gravíssimas! Só ela poderia fazer alguma coisa que impedisse o que iria acontecer.

Davi, por estar em grande e urgente necessidade, e aproveitando altura especial que se vivia, pediu auxílio material a Nabal. Como resposta, foi insultado! Com essa atitude, e vivendo Davi em tempo de guerra, era provável que a vingança viesse a caminho e que a mesma se fizesse sentir não apenas contra Nabal, mas que acabasse por atingir toda a sua família. Era, de facto, uma situação extremamente difícil aquela com que Abigail se via confrontada!  

Com toda a sua família em risco, aquela mulher pôs em prática a sua inteligência e sensatez. Avaliada toda a dimensão do problema,  arquitectou o seu plano e lançou mãos ao trabalho. Não perdeu tempo a maldizer a sua sorte: cozinhou cinco ovelhas, cozeu duzentos pães, foi ao celeiro buscar cereais e à despensa duzentas pastas de figo e cem cachos de passas. Que óptima governante da sua casa! Colocou tudo, ela própria, sobre jumentos e deu as suas ordens aos seus criados. Mais: acompanhou-os, encoberta, para que tudo se fizesse conforme tinha planeado e foi ao encontro do homem que ela sabia ser temente a Deus e que  fora ofendido, injustamente, pelo seu marido.

É muito especial o relato do diálogo de Abigail com Davi. Começou por pedir desculpa em nome do seu marido, assumindo a culpa da atitude errada que aquele tivera: “Perdoa a transgressão da tua serva; pois de facto, o Senhor te fará casa firme, porque pelejas as batalhas do Senhor (…)” (v.28).Ao mostrar a sua solidariedade para com Davi, revelou-lhe que era uma mulher culta, conhecedora do que estava a acontecer na sociedade em que vivia e, ao mesmo tempo, que também amava a Deus, pois sabia “todo o bem que (Deus) tem dito a teu respeito” (v.30). Ofereceu-lhe, então,  o presente que preparara, para ele e para todos os companheiros que o ajudavam naquele tempo difícil.

Davi ficou muito aliviado ao ouvi-la! “Bendito O Senhor, Deus de Israel, que, hoje, te enviou ao meu encontro. Bendita seja a tua prudência, e bendita sejas tu mesma, que hoje me tolheste de derramar sangue e de que por minha própria mão me vingasse… Então, Davi recebeu da mão de Abigail o que esta lhe havia trazido e lhe disse: Sobe em paz à tua casa… ” ( vv:32-33, 35).

Enquanto Nabal trouxera, com o seu comportamento, aflição à sua família, Abigail, com a sua inteligência e sensatez, com o trabalho das suas mãos, com a sua prudência (reconhecida e expressa por Davi), trouxe paz.


Ao regressar a casa, encontrou o seu marido no grande banquete, muito alegre e muito embriagado. Abigail resolveu calar-se, não contou nada do que se passara “nem muito nem pouco”! Esperou, sabiamente, o tempo oportuno para lhe contar o que se passara… Quando ele, já sóbrio, soube o que acontecera, ficou de tal forma assustado que adoeceu.

Algum tempo passou.

Era um novo dia, mais um, na vida de Abigail, que ficara viúva recentemente. Encontrava-se em casa, no Carmelo, com as suas criadas, ocupada com os seus trabalhos, agora que tinha responsabilidades acrescidas no governo dos seus bens. Não esperava  visitas, por isso ficou surpreendida quando avistou  alguns homens que se aproximavam… Atenta e cortês, dispôs-se a ouvir o que os trazia ali, à sua casa, naquele lugar distante.  

Depressa ficou a saber:  os visitantes eram mensageiros de Davi e portadores de uma mensagem do seu senhor. Sem delongas, a mensagem foi entregue: tratava-se de um convite muito especial: Davi “desejava tomá-la por mulher” (v. 39).

Davi não a esqueceu. Certamente achou-a uma mulher muito bela mas, mais do que isso, a força do seu carácter tornou-a especial aos seus olhos.

“ (…) Abigail se apressou e, dispondo-se, cavalgou um jumento com as cinco moças que a assistiam; e seguiu os mensageiros de Davi, que a recebeu por mulher.” (I Sam.25:42)

Foi escolhida por um grande homem e com ele viveu aventuras de guerra e de vitória. O seu amor a Deus, a sua sensatez e prudência, evitaram a destruição da sua família, tendo a mesma sido aumentada com o nascimento dum menino, a quem ela e Davi chamaram Quireabe.

“Bem aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.”  Jesus Cristo (Mat.5:9)

 

Lídia Pereira Mendes

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