Lídia Mendes - Julgamento sem Testemunhas

“ Nisto são manifestos os filhos de Deus…: todo aquele que não pratica a justiça não procede de Deus…” I Jo 3:10

 

Correram, ansiosas, para expôr o seu problema em julgamento, esperando que fosse feita justiça em tão difícil situação. Ambas estavam profundamente aflitas mas, enquanto o desgosto de uma era acompanhado de pânico e aflição, o da outra estava envolvido num manto de imaginação e mentira que teria de ser  mantido a todo o custo, já que  não havia testemunhas que pudessem confirmar ou desmentir os seus depoimentos.

 

Partilhavam as duas as dificuldades das suas vidas morando na mesma casa, uma maneira de dividirem as despesas e a solidão em que ficavam terminados os encontros com os muitos homens que as procuravam sem afecto… Eram desprezadas e hostilizadas pois, como prostitutas,  a sua companhia não era recomendável nem a sua conduta aceite pelas famílias e pela sociedade.

 

Num dia feliz, uma expectativa fez uma delas estremecer de alegria: iria ser mãe! O vazio da sua vida seria preenchido por aquele amor que tinha para dar e que existia nela desde que nascera. Finalmente teria alguém a quem poderia chamar seu, seu filho, seu futuro amigo e motivo para viver…

 

Não passou muito tempo até que a sua companheira teve a certeza de que também iria ser mãe. Tal como a casa, a solidão e as agruras, passaram a partilhar os meses de espera dos seus bébés sem terem, no entanto, muito com que fazer os preparativos pois nem caminha tinham para eles…

 

Os dias foram passando de maneira diferente, mais doces, mais luminosos, até que, finalmente, chegou a hora do nascimento de um. Era um menino… olhado docemente por sua mãe, que lhe estudava as feições, sentindo a doçura da sua pele e absorvendo a sua paz e companhia.

 

Não foi surpresa para elas quando, três dias depois, chegou a hora do outro nascimento. Foi igualmente com imensa alegria que a segunda mãe abraçou o seu menino, seu bem precioso e promessa de amor…

 

Não sabemos quantos dias passaram até que um terrível acontecimento mudou todo o ambiente que ambas viviam: uma madrugada, ao acordar para dar de mamar ao seu bébé, a que fora mãe primeiro viu, com enorme desgosto e surpresa, que ele estava morto. Como acontecera? O que se passara? … e um vazio sem fim, uma incredulidade do tamanho do mundo  apoderaram-se dela. Com a luz da manhã mais uma vez olhou bem para aquele menino inerte e foi com enorme espanto que viu que não era aquele o seu bébé! Não tinha os mesmos olhos, nem a mesma pele, não era ele!!! Percebeu o que se passara: Tinha havido uma troca, uma terrível mentira: o menino morto era o da sua companheira que, por infortúnio, ao dormir se deitara sobre o filho e, ao vê-lo sem vida e ao sentir uma dor tão inexplicável, agiu rapidamente para apagar o que acontecera!

 

Estava lançada uma tremenda desavença entre as duas! Só um julgamento justo poderia resolver o seu drama…

 

Este acontecimento poderia ter sido noticiado num qualquer periódico dos dias em que vivemos, poderia ter tido lugar na semana passada ou ontem, assim, tal e qual…  mas não: passou-se  cerca de 970 anos A.C. e está contado no Livro mais precioso, velho de séculos, novo em cada dia que passa – A Bíblia Sagrada – onde tudo o que está registado é para exemplo e estrutura da vida dos  homens. De tal forma este relato é conhecido que ficou famosa a sentença dada em caso tão difícil:  uma “Sentença Salomónica”:

 

“Disse Salomão: Trazei-me uma espada…  dividi em duas partes o menino vivo e dai metade a uma e metade a outra. Então, a mulher cujo filho era o vivo falou ao rei (porque o amor materno se aguçou  por ser seu filho), e disse: Ah! senhor meu, dai-lhe o menino vivo e  por modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: nem meu nem teu; seja dividido. Então respondeu o rei: Dai à primeira o menino vivo, não o mateis, porque esta é a sua mãe”. Todo o Israel ouviu a sentença que o rei havia proferido, e todos tiveram profundo respeito ao rei, porque viram que havia nele a sabedoria de Deus para fazer justiça”. (I Reis 3:24-28).

 

Passaram-se tantos séculos sobre esta sentença e, ainda hoje, nestes dias difíceis e inseguros, em que tanto se fala de justiça e injustiças, de leis e legisladores, de demoras e impunidades, todos desejamos que haja e se faça Justiça na sociedade em que vivemos. Se pensarmos honestamente, não são apenas os tribunais e juízes os responsáveis por exercer esse dever absoluto mas cada um de nós, no nosso dia-a-dia, quantas vezes “guardamos” silêncio perante a injustiça ou, mesmo (ainda que involuntáriamente)  “lavramos” sentenças injustas dentro do nosso coração…  Não esqueçamos :  “…os injustos não herdarão o reino de Deus”. (I Co 6:9)

 

Mas como poderemos ser justos em situações tão difíceis que surgem na nossa vida ou a a que assistimos, tantas vezes impotentes e frágeis em nós mesmos? É o Legislador perfeito que, ainda na Sua Palavra, nos promete ajuda e aconselha a nos “fortalecermos no Senhor e na força do Seu poder, revestindo-nos de toda a armadura de Deus, para podermos ficar firmes contra todas as ciladas do diabo … cingindo-nos com a verdade e vestindo-nos com a couraça da justiça”. (Ef 6:10-14)  

 

                                                        Lidia Pereira Mendes

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