Na chamada para o ministério.
A graça de Deus começa logo a agir, quando recebemos a chamada divina para o ministério. Somos chamados para o ministério pela graça. É preciso ter muito bem claro que ninguém é chamado por qualquer razão que inclua o mérito. Esta era a convicção profunda que acompanhou o apóstolo das gentes durante todo o seu percurso ministerial: “Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça” (Gl 1:15); “Pois eu sou o menor dos apóstolos, que nemsou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou”(ICo 15:9-10); “A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar aos gentios as riquezas inescrutáveis de Cristo” (Ef 3:8).
Tão pouco, é um favor que fazemos a Deus, como alguns por vezes parecem dar a entender na sua auto comiseração, mas outrossim trata-se dum favor que Ele nos faz. É altamente favorecido todo aquele que tem o privilégio de ser chamado para o santo ministério.
Na concessão do ministério.
É, de igual modo, pela graça que recebemos o nosso ministério. “pelo qual recebemos a graça e o apostolado, por amor do seu nome, para a obediência da fé entre todos os gentios” (Rm 1:5); “Mas em parte vos escrevo mais ousadamente, como para vos trazer outra vez isto à memória, por causa da graça que por Deus me foi dada, para ser ministro de Cristo Jesus” (Rm 15:15-16).
Tornamo-nos ministros de Deus pelo dom da graça. “do qual fui feito ministro, segundo o dom da graça de Deus, que me foi dada conforme a operação do seu poder” (Ef 3:7)
No exercício do ministério.
A graça de Deus produz a efectividade no ministério.
O nosso ministério só se pode tornar efectivo pela graça. É a preponderância da graça divina no nosso ministério que o torna efectivo. “Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1Co 15:10).
Contudo, a graça não pactua com a preguiça, mas faz-nos trabalhar muito mais. A graça, simplesmente, leva-nos a realizar um trabalho tanto mais intenso quanto mais excelente.
Por outro lado, o nosso trabalho sem a graça divina não pode ter resultados positivos. Os efeitos positivos do nosso trabalho, enquanto ministros, provam a efectividade da graça no nosso ministério.
A graça de Deus produz confirmação no ministério.
O crescimento da ascendência da graça é uma confirmação do nosso ministério perante Deus e os homens. “E crescia Jesus em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2:52)
O nosso ministério é confirmado perante a liderança e a igreja, quando a graça de Deus é notória na nossa vida: “e quando conheceram a graça que me fora dada, Tiago, Cefas e João, que pareciam ser as colunas, deram a mim e a Barnabé as destras de comunhão, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão” (Gl 2:9).
A graça de Deus produz grande poder no ministério.
É pela graça que nos é concedido o poder necessário e indispensável para pregar o evangelho com eficácia: “Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça” (Act 4:33).
A graça, também, concede poder para realizar milagres. “Ora, Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo” (Act 6:8).
A graça de Deus produz sabedoria para o exercício do ministério.
A operação da graça, no nosso ministério, dá-nos sabedoria e autoridade diante do povo para ensinar, exortar e aconselhar: “Porque pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus, repartiu a cada um” (Rm 12:3). Podemos estar a ensinar, a exortar ou a aconselhar sem sabedoria e sem autoridade, porque falta essa imprescindível manifestação da graça divina no nosso ministério.
A graça concede-nos, de igual modo, a sabedoria necessária para construir ou edificar a Obra de Deus: “Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei eu como sábio construtor, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele” (I Co 3:10). A Obra de Deus só pode ser edificada por aqueles que detêm o toque da graça no modo como edificam. Quando falta essa operação da graça, na vida do Obreiro, assistimos à destruição em vez de edificação.
A graça de Deus produz sustento e suporte no ministério
A graça é o grande sustentador e o autêntico suporte do nosso ministério: “E dali navegaram para Antioquia, donde tinham sido encomendados à graça de Deus para a obra que acabavam de cumprir” (Act 14:26); “Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor” (Act 15:40). A graça é bastante para suprir as necessidades, sustentar nas fraquezas e consolar nas lutas que exuberam no nosso ministério: “e ele me disse: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Por isso, de boa vontade antes me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que repouse sobre mim o poder de Cristo” (II Co 12:9).
A graça de Deus produz fortaleza no ministério
A graça fortalece o nosso ministério. É nela que encontramos a força necessária e suficiente para enfrentar e debelar os problemas, para suportar e vencer as lutas e as provas por que passamos, e para, corajosamente, tomar decisões, muitas vezes, tão difíceis. “Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus” (II Tm 2:1). Não fora a força da graça divina, de certeza que já teríamos sucumbido perante as lides e os reveses do ministério.
A graça de Deus produz carácter essencial ao ministério.
O nosso ministério não deve socorrer-se da hipocrisia e da sabedoria carnal que mancham e corrompem o carácter, como fazem os líderes deste mundo e alguns líderes religiosos também. É necessário buscar a graça de Deus que desenvolve em nós a santidade e a sinceridade, que nos permite manter a integridade do nosso carácter: “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que em santidade e sinceridade de Deus, não em sabedoria carnal, mas na graça de Deus, temos vivido no mundo, e mormente em relação a vós” (II Co 1:12).
A graça de Deus providencia os dons do ministério.
Os dons indispensáveis para o ministério são concedidos pela graça: “De modo que, tendo diferentes dons segundo a graça que nos foi dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé” (Rm 12:6). A graça pode santificar e usar os nossos dons naturais. Contudo, ela é a fonte da concessão dos dons ou carismas do Espírito Santo, que permitem dar uma dimensão sobrenatural ao nosso ministério. Pois, por meio dos dons espirituais, podemos saber sobrenaturalmente, agir sobrenaturalmente e falar sobrenaturalmente.
Existem diferentes medidas de graça no ministério.
É um facto inegável que a medida de graça no ministério não é igual para todos. Depende do dom de Cristo: “Mas a cada um de nós foi dada a graça conforme a medida do dom de Cristo” (Ef 4:7). Prende-se, também, com a vontade e o prazer do Senhor em conceder os Seus talentos e com a nossa capacidade em exercitá-los: “a um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade” (Mt 25:15).
Cristo pode dar mais graça a uns do que aos outros, embora exercendo o mesmo tipo de ministério. Pode conceder, também, mais graça a uns para exercerem uma determinada área ministerial e a outros para exercerem outra área diferente: “E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres” (Ef 4:11). Tendo esta verdade em atenção, devemos excluir toda e qualquer jactância: “Ora, irmãos, estas coisas eu as apliquei figuradamente a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, de modo que nenhum de vós se ensoberbeça a favor de um contra outro. Pois, quem te diferença? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” (I Co 4:6-7).
Somos “gestores” da graça de Deus.
Fomos constituídos despenseiros ou gestores da graça para os crentes a quem servimos: “Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada” (Ef 3:2).
Devemos servir as pessoas, usando a multiforme graça de Deus, na qualidade de despenseiros ou gestores: “servindo uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (I Pe 4:10).
Para isso precisamos de duas coisas indispensáveis: conhecimento das necessidades das pessoas, quer sejam crentes ou incrédulos, e conhecimento dos recursos da multiforme graça de Deus, para podermos ajudá-las nas suas necessidades. Quanto maior for a predominância da graça em nós, mais aptos estaremos para gerir os recursos da mesma, afim de abençoar os outros.
Ao gerirmos a graça de Deus devemos, também, ter todo o cuidado em relação a dois extremos muito perigosos, para não cair em nenhum deles:
Fazer vã ou anular a graça impondo o legalismo.
Promover o legalismo é anular a graça, perverter o evangelho e escravizar o crente privando-o da liberdade com que Cristo o libertou.
“Não faço nula a graça de Deus; porque, se a justiça vem mediante a lei, logo Cristo morreu em vão” (Gl 2:21); “Estou admirado de que tão depressa estejais desertando daquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho, o qual não é outro; senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1:6-7); “e isto por causa dos falsos irmãos intrusos, os quais furtivamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos escravizar; aos quais nem ainda por uma hora cedemos em sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Gl 2:4-5).
Cair no legalismo é desertar de Cristo e fomentar uma teoria ou filosofia completamente contrária ao Evangelho.
Converter em dissolução a graça caindo no antinomismo (contra a lei).
“Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que abunde a graça? De modo nenhum. Nós, que já morremos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Rm 6:1-2). O antinomismo, que é tão velho e tão pernicioso como o legalismo, defende que o crente, como está debaixo da graça e não da Lei, pode viver de qualquer maneira, sem qualquer obrigação para com a lei moral.
Tal teoria ou filosofia, obteve da parte do apóstolo Paulo uma veemente refutação: Pois quê? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum.” (Rm 6:15).
Ao longo de todo o seu ministério, o apóstolo de Tarso denunciou e rebateu o antinomismo, usando a sua pena em consonância com outros escritores do Novo Testamento, tais como Pedro e Judas.
Diz Paulo que a liberdade cristã, que é alcançada pela graça, não pode servir de pretexto para vivermos uma vida carnal e pecaminosa. Pelo contrário, essa mesma graça ensina-nos a dizer não à impiedade e ao mundanismo, afim de vivermos de maneira auto controlada, justa e no temor de Deus. “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Mas não useis da liberdade para dar ocasião à carne, antes pelo amor servi-vos uns aos outros.” (Gl 5:13); “Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos, para que, renunciando à impiedade e às paixões mundanas, vivamos no presente mundo sóbria, e justa, e piamente”(Tt 2:11-12);
Pedro assevera que, embora livres, a liberdade cristã não pode servir de capa para a malícia: “como livres, e não tendo a liberdade como capa da malícia, mas como servos de Deus.” (I Pe 2:16).
Judas denuncia a entrada no seio da comunidade cristã de obreiros ímpios que convertiam em dissolução a graça de Deus. “Porque se introduziram furtivamente certos homens, que já desde há muito estavam destinados para este juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.” (Jd 1:4). Isto é, corrompiam e destruíam o valor da graça pelo seu ensino fraudulento e pela prática ímpia de suas vidas.
A graça está directamente relacionada com a humildade.
A soberba atrai a resistência de Deus, mas a humildade no Obreiro cria o terreno propício para a manifestação da Sua graça: “Todavia, dá maior graça. Portanto diz: Deus resiste aos soberbos; dá, porém, graça aos humildes.” (Tg 4:6).
Quando o ministro perde a humildade, a graça deixa de fluir no seu ministério.
Quantos não têm perdido o inestimável benefício da graça nos seus ministérios por causa da soberba, do orgulho e da arrogância.
Luís Reis
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