Em coisas essenciais, unidade; nas não essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade
De acordo com o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda, radicalismo é “qualquer comportamento inflexível, o qual provoca antagonismos”.
Em que formamos uma unidade perfeita?
Jesus, em sua oração intercessora, declarou: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em
unidade, e para que o mundo conheça que me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim”, (Jo. 17:22,23).
Na verdade, somos unidos em questão de fé, pois “cremos em Deus Pai, infinito, pessoal, santo, criador e sustentador do Universo; cremos em Jesus, o único Deus-homem; em seu
nascimento virginal, em sua vida encarnada, na autoridade do seu ensino, em sua morte expiatória, na sua ressurreição histórica e em seu retomo pessoal à Terra; cremos no Espírito
Santo, por cuja inspiração especial a Bíblia foi escrita e por cuja graça pecadores são hoje justificados e nascidos de novo, transformados na imagem de Cristo no mundo”. Nestas e em outras doutrinas bíblicas formamos uma unidade perfeita.
Contudo, divergimos uns dos outros em assuntos de somenos importância. Algumas das questões que nos dividem são teológicas e outras meramente temperamentais. No primeiro caso, surgem as diversas correntes principalmente em torno de temas polémicos, como, por exemplo: Jefté matou ou não a sua filha? Uns acham que sim e até tentam provar biblicamente; outros dizem que não e procedem da mesma forma, citando as Escrituras Sagradas, para mostrar que estão certos. Portanto, embora defendamos os nossos pontos de vista escriturísticos, jamais pressionemos dogmaticamente a consciência dos demais que pensam diferentemente, mas tratemos a todos eles com amor e respeito, pois, conforme o epigrama citado por Richard Baxter, “em coisas essenciais, unidade; nas não essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade”. Vejamos analiticamente este epigrama e cheguemos à seguinte conclusão:
Em coisas essenciais, unidade. Significa que sobre as doutrinas bíblicas não há o que se discutir, pois são divinas e estabelecidas por Deus para a nossa edificação espiritual. Portanto, não pode haver discordância a respeito delas, Ef.4:4-6. Nas não essenciais, liberdade. Desde que haja unidade nas coisas essenciais, temos a liberdade de divergir nas não essenciais, mediante o respeito ao ponto de vista de cada um.
Em todas as coisas caridade. E comum termos uma ideia já concebida sobre a interpretação de determinado assunto doutrinário ou uma posição cristalizada a respeito dos costumes. No entanto, devemos amar e respeitar os outros, pois esta é a vontade de Deus expressa no Salmo 133:1. Inclusive, precisamos ser flexíveis, quando percebemos o nosso engano e humildes para reconhecermos o erro que cometemos.
Em que divergimos?
Entre os biliões de habitantes existentes na face da Terra, nenhum deles é igual ao outro, pois Deus ama a diversidade e cria uma variedade de tipos humanos, temperamentos e personalidades. Por isso, a disposição de muitos é conservadora e detestam mudanças, enquanto outros são contrários à tradição e rejeitam a monotonia. Por essa razão, jamais permitamos que o nosso temperamento nos controle, mas concordemos que as Escrituras Sagradas julguem as nossas inclinações naturais.
Sejamos intelectuais e emocionais.
Jamais devemos ser exclusivamente guiados pelo nosso intelecto, em detrimento das nossas emoções. Por este motivo, muitos acham que a fé é inteiramente irracional. Mas a Bíblia nunca coloca este dom e a razão como sendo incompatíveis. Pelo contrário, esta virtude do Espírito só pode nascer e crescer em nós pelo uso de nossas faculdades mentais. Infelizmente, há no nosso meio evangélico os intelectuais, ou seja, os dirigidos apenas pelo intelecto, e os emocionais, os exclusivamente guiados pelas emoções. Bom seria que todos tivessem uma dosagem de acção do intelecto e outra medida na mesma proporção das emoções, para se estabelecer o equilíbrio cristão. Os que agem de forma contrária não passam de mundanos e carnais, pois se deixam levar pelos caprichos do mundo, de serem irredutíveis em suas posições, ao se julgarem os donos da verdade.
Devemos ser conservadores ou liberais?
Por conservador entendemos ser a pessoa que está determinada a conservar ou preservar o antigo e é, por isso, resistente a qualquer tipo de mudança, enquanto que o liberal é o que está em constante rebelião contra o que é herdado do passado e deseja, a todo o custo, as inovações.
Na minha opinião, cada um de nós deveria ser um conservador e um liberal ao mesmo tempo. No primeiro caso, porque a Igreja foi chamada por Deus para conservar a sua revelação, pois a sua tarefa não é a de inventar novos evangelhos, novas teologias, novas moralidades e novos cristianismos, mas, antes de tudo, ser uma guardiã fiel do único Evangelho eterno, que jamais pode ser alterado. No segundo caso, porque a mudança, às vezes, se faz necessário, devido às transformações sociais. No entanto, para muitos, qualquer tipo de mudança, mesmo sendoextremamente necessária, é considerada anátema. Agem como um certo duque inglês que, certa vez, declarou: “Qualquer mudança, em qualquer tempo e por qualquer razão, deve serevitado a qualquer custo”, O slogan deles é: “Como foi no princípio, é agora e será para sempre. Amém”. Estes são os chamados radicais temperamentais que habitam no pólo do conservadorismo exacerbado e para eles não há diálogo ou consenso, pois “pau é pau e pedra é pedra”. Em razão de serem os donos da verdade, não pode haver engano nas suas concepções e jamais um suposto pedaço de madeira envernizado poderá ser um pedregulho revestido de papel com a aparência de cerejeira. Volto a frisar que precisamos ser conservadores e liberais de acordo com as circunstâncias, como o foi o Senhor Jesus. Ele defendeu veementemente as Escrituras e afirmou que elas jamais seriam anuladas, quando disse: “...nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido”, Mt. 5:18b. o entanto, foi também favorável a diversas mudanças, pois combateu com destemor o tradicionalismo judaico e teve a coragem de jogar na lata do lixo as tradições dos anciãos, para que a Palavra de Deus pudesse ser apreciada e novamente obedecida, Mc. 7:8-113. Por conseguinte, precisamos distinguir as Escrituras Sagradas dada cultura. A primeira é a Palavra de Deus eterna e imutável, e a segunda, uma mistura de tradição eclesiástica e social. A cultura é, portanto, derivada da igreja e comunidade, e jamais pode exigir sua imunidade ao criticismo ou reforma, pois os valores mudam de época para época e de lugar para lugar.
As missões transculturais
Este é um dos principais problemas em muitas igrejas espalhadas pelo mundo, fundadas por missões europeias e norte-americanas, as quais estão à procura de sua própria identidade. Elas se deparam com dois problemas: a cultura nativa, apesar dos seus líderes reconhecerem que alguns costumes tradicionais de seus países são incompatíveis com a fé cristã; e a cultura estrangeira, considerada por muitos como uma afronta à própria dignidade nacional. Na verdade o Cristianismo não pertence a qualquer grupo de homens, pois Cristo é Senhor de todas as raças, sem jamais ter feito acepção de pessoas. Desde que os valores culturais de cada nação sejam compatíveis com as Escrituras Sagradas, eles devem ser aceitos pelos evangélicos nativos. Tais costumes, no entanto, estão sujeitas às mudanças, de acordo com as transformações sociais.
“Entre os biliões de habitantes existentes na face da Terra, nenhum deles é igual ao outro, pois Deus ama a diversidade e cria uma variedade de tipos humanos, temperamentos e personalidades. Por isso, a disposição de muitos é conservadora e detestam mudanças, enquanto outros são contrários à tradição e rejeitam a monotonia”
O radicalismo na igreja
Jamais esquecemos que Jesus nunca pendeu, em suas propostas e decisões, para a direita e muito menos para a esquerda e, sim, para o centro. Durante todo o Seu ministério, Ele optou pela ponderação e pelo equilíbrio em suas considerações. Muitos cismas têm surgido em nosso meio, exactamente por falta do diálogo entre as partes. A Bíblia é a Palavra de Deus e tem resposta para todas as nossas questões. Devemos, portanto, orar e consultá-la, a fim de jamais tomarmos decisões precipitadas, as quais só trazem prejuízo para a causa do Evangelho. Não podemos nos esquecer que um automóvel possui também a marcha à ré, necessária quando desejamos retornar ou corrigir um erro cometido. A flexibilidade, por isso, é necessária para chegarmos a um bom termo em uma desarmonia que, às vezes, surge entre nós. Nem sempre podemos ganhar todas as questões que deparamos em nossa vida. Às vezes,
precisamos descer do pedestal do nosso egoísmo e renunciar o nosso querer, para obtermos uma grande vitória mais adiante. A compreensão entre nós deve ser uma das marcas registadas no seio da Igreja de Cristo.
O radicalismo no lar
Muitos pais perdem os seus filhos, os quais deixam os seus lares e vão embora, e diversos deles saem para nunca mais voltar, simplesmente por causa da incompreensão reinante no seio da família. Jamais permitamos que o choque de gerações nos impeça de termos comunhão com todos os nossos entes queridos. Não podemos exigir dos nossos rebentos o que nem mesmo nós suportamos, quando passamos pela infância, adolescência e juventude. Por isso, precisamos efectivar o diálogo em nossas conversas com eles, sem jamais radicalizarmos as nossas posições. Muitos dos nossos obreiros viram seus filhos se desviarem e seguirem por caminhos tortuosos, sem jamais perceberem que foram os únicos culpados, pois não souberam ser maleáveis com eles. Hoje, amargam uma vida de solidão e culpam a natureza dos filhos pelo mau procedimento que exercem. Concluo este artigo, afirmando que o obreiro, como seguidor de Jesus, deve ser radical na conservação da doutrina bíblica, pois é divina, ou seja, procedente de Deus, e jamais deve ser modificada. Entretanto, no tocante aos
costumes, deve haver flexibilização, desde que esta flexibilização não seja contrária aos ensinamentos esposados pelas Escrituras Sagradas.
In Obreiro, Liderança Pentecostal
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