A Bíblia claramente identifica o despoletar da violência com a queda do homem, o pecado original e a corrupção da natureza humana. Ao mesmo tempo o texto sagrado de judeus e cristãos (o Velho Testamento), mostra que esse confronto violento se vai agravando até ao ponto em que o próprio Deus se vê na necessidade de pôr termo a toda uma geração de pessoas através do dilúvio, para que o Seu objectivo de salvação não pudesse ser comprometido pela devastação causada pelas forças espirituais da maldade e pelo género humano, sem uma definição de valores morais e espirituais mínimos, depois de ter comido da árvore da ciência do bem e do mal, querendo assumir-se como legislador dos seus próprios padrões.
A Bíblia não esconde a violência e as guerras, como não esconde todas as restantes falhas dos seus mais destacados heróis. A revelação divina mostra como no Jardim do Éden reinava uma paz absoluta e mostra como Deus se empenhou a reconstruir essa paz de uma forma rigorosa, meticulosa e objectiva, sem demagogia e sem falsos remédios. Era preciso toda uma caminhada do homem e d’Ele mesmo, que passaria pela Sua encarnação, pela cruz e pela ressurreição, para que o homem mudasse por dentro. É que a questão da paz é antes de tudo o mais da natureza e essência humana, do seu relacionamento com o Criador e consigo próprio.
Ao longo do período dos patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó) não encontramos nada do que poderá ser invocado por violência e guerra, a não ser em legítima defesa quando o pai da nação hebraica vai no encalço dos raptores do seu sobrinho Ló e o traz de volta. A violência é sempre exercida contra os patriarcas e existe sempre da parte destes uma atitude de pacificação. A contenda entre os irmãos Esaú e Jacó acabam por serem superados numa reconciliação exemplar e na qual Deus tem um papel determinante. A traição de Simeão e Levi contra os siquemitas por causa da violação de Diná, é fortemente censurada por Jacó: “Vós me afligistes e me fizestes odioso entre os moradores desta terra, entre os cananeus e os ferezeus; sendo nós pouca gente, reunir-se-ão contra mim e ser destruído, eu e minha casa.” (Génesis 34:30).
José, filho de Jacó chega ao Egipto e, pela providência divina, implementa toda uma estratégia que virá a salvar a nação e a sua própria família da fome. Depois de alguns anos surge um faraó que, não o tendo conhecido, reduz os hebreus à condição de escravos e exerce sobre eles uma violência inusitada. Deus conhece e intervém. Convoca Moisés e a acção divina é uma intervenção poderosa de libertação. Se há violência ela só acontece em última instancia devido à dureza do coração faraónico. Finalmente o povo é liberto e quando diante do Mar Vermelho o déspota do Egipto pretende provocar um genocídio, a mão divina uma vez mais detém a violência, que acaba por cair sobre os violentos.
A entrada do povo de Israel na terra prometida é das que causa mais crítica por parte dos detractores da Bíblia e de Deus que nela se revela, procuram aí encontrar legitimação para acusar o Criador de violência. Erra-se quando não se aplicam os princípios elementares de contextualização, como também erram todos os que procuram encontrar aí uma justificação para o exercício da guerra em nome de Deus.
O povo que vivia naquela região foi destruído por causa da sua maldade. Estamos longe de entender a maneira de ser e de agir naqueles tempos e hoje encontramos alguns paralelos polémicos. “Não é por causa da tua justiça, nem pela retitude do teu coração que entras a possuir a terra, mas pela maldade destas nações o Senhor teu Deus as lança fora, de diante de ti; e para confirmar a palavra que o Senhor teu Deus jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó.” (Deuteronómio 9:5). “Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal cousa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança de diante de ti.” (Deuteronómio 18:9-12). Existem momentos em que a única forma de impedir certas posturas e salvaguardar a defesa de outras, é intervir de uma maneira mais radical É o que também ocorre com o plano da salvação. Mas simultaneamente o texto bíblico reafirma que não é a virtude do povo de Israel que lhes garante a posse da terra. “Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o Senhor teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo de dura cerviz.” (Deuteronómio 9:6).
Convém reparar que toda esta população foi anteriormente exposta à maneira de viver e de proceder dos patriarcas que ali viveram. A sua influência não causou o progresso esperado. À semelhança do que aconteceu anteriormente com o dilúvio, com Sodoma e Gomorra, com o Egipto, também ali não estamos perante uma guerra e violência gratuita.
Repare-se ainda que nunca por nunca ser assistimos a qualquer prepotência que visasse impor uma determinada religião. Nunca por nunca ser encontramos o povo de Israel a tentar impor pela força as suas convicções espirituais aos povos que os rodeavam. Se por um lado encontramos na Bíblia um continuado apelo à separação dos seus hábitos e costumes, salvaguardando a diferença que advém de dar ouvidos ao que Deus fala e ordena, é pelo exemplo que esses mesmos povos devem ser alcançados.
O período dos Juízes fica marcado pela invasão sucessiva dos territórios das tribos de Israel pelos seus vizinhos e pela sua reacção de modo a garantir a sua soberania. Durante esta fase da história bíblica fica patente que a estabilidade social e económica de Israel depende da sua obediência e dependência de Deus.
Aquando dos reis Saul, Davi e Salomão em que o reino se manteve unido e coeso as guerras que tiveram lugar, principalmente a conquista de Jerusalém, visaram consolidar a nação. É importante aqui ter em consideração que Deus não consentiu que o rei Davi construísse o templo precisamente por causa de, entre outras coisas, ter sido violento e homem de muitas guerras. “Porém a mim me veio a palavra do Senhor, dizendo: Tu derramaste sangue em abundância, e fizeste grandes guerras; não edificarás casa ao meu nome; porquanto muito sangue tens derramado na terra, na minha presença.” (1 Crónicas 22:8).
No período subsequente à divisão de Israel, os conflitos que surgem vêm na mesma linha e são mais resultado de invasões de nações vizinhas e em que a relação com Deus era essencial, para que pudessem resistir e prevalecer. Ambos os reinos (Norte e Judá) acabam por perder a sua independência às mãos das potências políticas e militares de então e que os profetas sempre explicaram por falta de temor ao Senhor. A maneira como Deus agiu para com os povos que habitavam naquela região é a mesma com que age para com o Seu povo. O próprio reino do Norte acaba por desaparecer e o Reino do Sul. Só o reino de Judá acaba por readquirir a sua autonomia, embora em meio a turbulências mais ou menos constantes e quando Jesus Cristo nasce o território encontra-se sob o poder de Roma.
Podemos dizer sem margem para dúvida que não temos nos propósitos divinos, a respeito de Israel, qualquer perspectiva expansionista, à maneira dos impérios que foram existindo (Egipto, Babilónia, Pérsia, Grécia, Roma). O plano sempre foi que através deles e sempre numa lógica de serviço surgisse o Salvador através de uma morte de cruz, como efectivamente veio a acontecer. O Messias não haveria de surgir em meio a uma superpotência, mas de um pequena nação cuja força pacífica estava em Jeová, ainda mais pequena depois da divisão; de um povo diríamos insignificante mas que amava profundamente a sua liberdade, viesse a surgir o Filho de Deus.
A pessoa de Jesus é singular combinando de forma sublime e inultrapassável a denúncia da hipocrisia, da arrogância, do legalismo, da prepotência com a candura, o carinho, a doçura, a aceitação e amor incondicionais; a rejeição do pecado e a aceitação do pecador, a não condenação e a autoridade para viver de uma forma diferente.
A Igreja do Novo Testamento é uma igreja perseguida, sujeita a violências várias em que ressalta a que é movida pelos dignatários religiosos, pressionando o poder político para que os apoiassem e dos quais umas vezes se distanciavam e outras vezes pactuavam.
A história da Igreja cristã é muito complexa e não se pode confundir as instituições e os que a história destacou porque pese embora terem esse nome, nem sempre tinham o que quer que fosse com Cristo.
À luz dos ensinos do Novo Testamento não é possível alimentar qualquer exercício de violência para difundir a fé, nem empreender qualquer guerra para consolidá-la.
A Reforma também está maculada com confrontos militares e uso da violência, mas hoje em dia à distância em que nos encontramos dos factos é preciso analisar os acontecimentos à luz das realidades políticas da época. Em qualquer dos casos a verdade que prevalece é a da impossibilidade de qualquer apoio em Cristo ou no Novo Testamento para tais práticas.
O que nos parece mais perigoso hoje em dia é proceder a leituras superficiais e tendenciosas dos acontecimentos do passado e a uma deturpação das narrativas bíblicas. Parece-nos também incorrecto apresentar certos conflitos hoje em dia como religiosos, quando não passam de conflitos políticos, económicos, sociais e culturais, dos quais eventualmente não se podem retirar as vertentes espirituais, mas de que conhecemos muito pouco para fazer afirmações que não chegam ao âmago da questão.
O caso palestino e judaico é um deles, como o é também o caso irlandês, do Afeganistão ou de Caxemira.
O que hoje em dia todos nós defendemos é que o diálogo e a negociação deve prevalecer, sobre a força das armas, da retaliação e da vingança.
A Bíblia contém variadas promessas que abrangem ambos os contendedores no Médio Oriente, mas só Deus as realizará, não pela via militar ou diplomática, mas pela segunda vinda de Jesus. E este evento não apenas cumprirá os desígnios divinos a respeito dessa região, mas de toda a terra e de todo o universo.
A missão da Igreja é orar e evangelizar, respeitar todos os credos mas viver e anunciar o senhorio de Cristo, ajudar todos os que precisam de ajuda e pelo exemplo, mais do que pelas palavras cada um dos seu membros viverem pacificamente, o que não significa silenciarem as injustiças, ou calarem as prepotências.
Sabemos de antemão que a paz mundial conjugada com a justiça e o amor, só acontecerão deveras com o reinado eterno do Príncipe da paz. Mas não pensem que essa expectativa nos põe de braços cruzados. A paz começa no nosso coração, vive-se no nosso lar e estende-se a todos os nossos relacionamentos.
Os maiores argumentos em favor de uma paz com justiça e amor encontram-se na existência de um Deus santo que é justo e amoroso, encarnou em Cristo, andando e vivendo entre nós numa época de prepotência e despotismo militar, de uma forma pacífica mas não demitida e alheada. Acabou por enfrentar a cruz após um julgamento injusto, mas saiu vencedor ressuscitando. Os tribunais humanos podem ser incompetentes, corruptos ou incapazes de lidar em toda a extensão com a maldade e a injustiça geradora de violência e guerra, mas a Bíblia dá-nos a certeza absoluta de que o pecado não compensa. Pode-se fugir a um qualquer tribunal internacional por um qualquer crime contra a humanidade ou contra o próximo, mas não se pode fugir ao Trono Branco do Juízo Final. É por isso que de alguma maneira a Bíblia nos mostra a todos como culpados diante de Deus, mas todos podemos ser absolvidos sem comprometer a Sua justiça, porque o Seu amor nos providenciou já o substituto.
O maior argumento da paz eterna em justiça e amor é Jesus Cristo, que sobre si tomou a nossa condenação. Por isso acreditamos na paz. Por isso queremos ser construtores da paz, mas não de qualquer jeito.
A Bíblia apresenta-nos a ira de Deus como o Seu amor. Este não poderia existir sem aquele. E o amor mostra-se de forma mais intensa quando a ira se manifesta de forma mais intensa sobre Ele próprio suspenso na cruz. A história da guerra e da violência será dissipada pela encontro da justiça e do amor no Calvário.
Samuel R. Pinheiro
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